
A gestão de riscos climáticos foi um dos assuntos abordados pelo Campo e Lavoura da Gaúcha deste domingo (25). Sobre o tema, participou Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coordenador da Rede Zarc Embrapa. Confira trechos.
Como as mudanças climáticas também impactam o calendário de plantio no Brasil?
Essas mudanças que estão ocorrendo nos padrões climáticos são avaliadas e quantificadas através do zoneamento agrícola de risco climático (o chamado Zarc). Os estudos de zoneamento fazem uma análise das séries históricas para avaliar a variabilidade inteira anual e quantificar os riscos climáticos para cada época de plantio, município, tipo de cultivo e cultura em todo o Brasil. Essas informações são utilizadas em dois programas de política agrícola, o Programa de Seguro Rural (PSR), que subvenciona uma parte do custo do seguro para o produtor, e também no Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária), que cobre a operação de crédito do produtor em caso de perda de produção por evento climático. Então, à medida que essas alterações climáticas começam a se refletir nos resultados do zoneamento, há um aumento de riscos climáticos em várias regiões do Brasil e isso acaba impactando, portanto, nas janelas e nos níveis de risco definidos no zoneamento. E, em última análise, acaba também afetando o acesso do produtor aos programas de política agrícola.
Como o produtor pode organizar esses fatores que, na verdade, não dependem dele, são fatores externos, para evitar correr um risco demasiado nesse cenário de extremos cada vez mais recorrentes e intensos?
Para ter a garantia de cobertura do PSR ou do Proagro, o produtor tem que plantar dentro das indicações do zoneamento ou dos níveis de risco aceitos nesses programas. Quando há atraso de chuvas, por exemplo, no início do plantio, às vezes os produtores acabam tendo que postergar o plantio até que condições adequadas de semeadura aconteçam. Quando as condições de chuva e de umidade não se apresentam e esse produtor acaba tendo que plantar muito tardiamente, planta em condições muitas vezes inadequadas. Porque, à medida que a gente posterga demais esse plantio da soja, mesmo com condições de umidade às vezes mais favoráveis lá na frente, o potencial produtivo reduz muito. A cultura vai estar exposta já a uma condição de decréscimo de fotoperíodo e de disponibilidade de radiação.
Quando o produtor faz o plantio fora do período recomendado é como se ele entrasse em uma competição de ginástica já com uma nota de partida mais baixa?
Exatamente. As janelas do zoneamento servem para dar um balizador dos níveis de risco, e plantar fora dessas janelas significa assumir um risco ainda maior.
Cerca de 70% dos problemas climáticos que ocorreram no Brasil são perdas por secas. Se associa muito a minimização dos impactos com o uso da irrigação nas lavouras. Mas, afinal, qual é o papel da irrigação?
As secas são o principal causador de perdas de produção no Brasil, sem dúvida nenhuma. E as estatísticas giram realmente em torno desses níveis de 60% a 70% de todas as perdas sendo causadas por seca. Então, é exatamente por isso que a possibilidade de você ter uma área irrigada reduz muito ou praticamente zera o risco de perdas de produção por seca, uma vez que você vai garantir as necessidades de água da cultura pela irrigação. Infelizmente, a tecnologia da irrigação não está disponível para todos os produtores, seja por falta de água ou de recursos hídricos disponíveis em muitos municípios, ou até mesmo pelo custo relativamente elevado da irrigação que acaba inviabilizando a adoção dessa tecnologia por alguns produtores. E uma segunda estratégia de manejo que a gente considera até mais importante, justamente porque está acessível a todos os produtores sem exceção, é o manejo aprimorado do solo, que nada mais é do que o plantio direto bem conduzido.
O Brasil é um grande precursor do plantio direto, mas, em muitas propriedades, deixou de se ter um sistema de plantio direto e, sim, passou-se a se adotar apenas algumas técnicas. Qual é a tua percepção sobre isso?
Não basta só fazer a semeadura direta no solo. O sistema plantio direto bem conduzido se fundamenta em três pilares. É preciso evitar revolver o solo. Um segundo pilar é a formação dos cultivos de cobertura, de palhada sobre o solo, para evitar deixá-lo descoberto. E também um esquema adequado de rotação de culturas. Não adianta plantar soja sobre soja todo ano e fazer a semeadura direta.






