Saiu o vencedor da licitação para fazer o estudo da Malha Sul de ferrovias que o Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) pretende usar para contrapor a proposta do leilão do governo federal, embasada no da Infra SA. O consórcio é liderado pela Alvarez & Marsal Consultoria em Engenharia. Tem ainda a Eagle Consultoria Econômica e de Engenharia e o escritório Machado, Meyer, Sendacz, Opice e Andrade – Advogados. A informação foi dada pelo diretor de Planejamento do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Leonardo Busatto, durante o Campo em Debate sobre ferrovias na Casa RBS, na Expointer.
A escolha considerou técnica e preço. O valor ficou em R$ 5,49 milhões. A ideia é assinar o contrato na metade de setembro, quando começam a contar os prazos. Até o final do ano, sai o primeiro diagnóstico. O estudo sai em 10 meses com proposta.
— Entendemos que apontará que a concessão integrada da Malha Sul é a melhor opção, mas poderá trazer cenários alternativos — diz o diretor do BRDE.
Busatto avalia que há tempo para ocorrer a construção de uma nova modelagem com o governo federal depois disso. Até porque a concessão à Rumo vence em fevereiro de 2027, mas será ampliada em dois anos para ter tempo hábil de uma nova empresa assumir.

Contas vinculadas
Fatiar ou não em três trechos é a divergência. Entende-se que o Paraná atrairia interessados, mas Santa Catarina e Rio Grande do Sul não. O governo federal argumenta que contas vinculadas exigiriam que a empresa que assumisse o "filé" aportasse recursos nos demais trilhos. O Codesul não sente essa segurança.
Aliás, o assunto foi apreciado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) nesta quarta-feira (2). O relator do processo votou a favor dos recursos vinculados, um ministro o acompanhou e outros três pediram vista. Será retomado em novembro o julgamento, que também definirá se este recurso será considerado privado ou público, podendo ser direcionado e contingenciado pelo governo, o que se reflete na atratividade maior ou menor pelo negócio na concessão.
Norte de fora
Secretário estadual de Logística e Transportes, Clovis Magalhães aponta o que considera falhas na proposta de concessão à mesa. Chama a atenção Passo Fundo não estar contemplada. É a cidade mais forte do norte gaúcho, região que mais se destaca hoje na economia gaúcha, com o avanço do agronegócio e dos biocombustíveis. Além do gargalo da BR-285, está sem trens desde a enchente.
Ímã de negócios
Aliás, participou também do painel o gerente-executivo da Soli3, Diego Piotto, reforçando que a empresa escolheu Cruz Alta para construir a fábrica de biodiesel de R$ 1,25 bilhão por causa da ferrovia. Fica lá o único trecho ainda funcionando no Rio Grande do Sul. Segundo ele, sem o trem, seriam 103 caminhões bitrem rodando por dia, 33 mil viagens por ano. O cálculo considera só soja e farelo, sem considerar o óleo.
O executivo, aliás, atuava no Mato Grosso e diz que lá a ferrovia está "voando". Questionado pela coluna, que mediou o painel, afirmou que há bastante mobilização das empresas. Isso organiza demanda, gera interesse econômico, mobiliza opinião pública e, portanto, políticos.
Sobre a proposta atual para o leilão, alerta que o trilho previsto para o Paraná carrega 25% mais carga do que o do Rio Grande do Sul. Isso está errado. Não há sentido em fazer uma nova concessão já saindo menos competitivo.
Água no nariz
Presidente do Sindicato dos Ferroviários do Rio Grande do Sul, João Calegari acompanha há décadas o setor e alerta para a degradação do patrimônio, lembrando que a ALL, antes da Rumo, já começou a abandonar a malha gaúcha. CEO da Agronemitz e vice-presidente da Associação dos Cerealistas do Rio Grande do Sul (Acergs), Caio Nemitz afirma que, se sentir-se segura, a iniciativa privada investe em terminais ferroviários. Ele tem uma estrutura, a Estação do Tigre, em Alegrete. Entende que o assunto ferrovia agora vai ter que andar porque "a água bateu no nariz".
Superintendente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Fábio Avancini faz um bom alerta, por fim: ferrovia é essencial, mas é importante pensar na integração dos modais, com o hidroviário e o rodoviário.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: crise na Casas Bahia, Quero-Quero pisa no freio, reforma de hotel parada e mais
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)





