Enchentes, estiagens e plantios sem cuidado tiraram a saúde do solo das lavouras. O Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS) ajuda produtores de todo o país na regeneração. O diretor Eduardo Martins, ex-presidente do do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no governo Fernando Henrique Cardoso, falou ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha.
Uma parcela dos agricultores nega a mudança climática, mas pergunto quantas vezes nos últimos 10 anos teve prejuízo. Safras têm sido comprometidas em produção e renda. Quando tem El Niño, a situação é diversificada no Brasil. Sul tem excesso de chuva. No restante, falta. Quando o solo encharca, raízes precisam respirar para buscar nutrientes, fica difícil a planta crescer. Além disso, aumenta risco de erosão e perda de solo. É preciso ter cuidado para decidir o que plantar e calibrar gasto.
O que é GAAS?
Uma rede de produtores que busca reduzir a dependência de insumos químicos e fazer áreas de produção mais resilientes a extremos climáticos. Trabalhamos com troca entre agricultores e suporte de pesquisadores. Também atuamos por lei para práticas regenerativas. Nossos solos estão comprometidos, sem saúde. Nosso esforço é recuperá-los, reduzir custo e aumentar resiliência.

O que o agricultor pode fazer?
Conscientizar-se. Quando perde solo, perde patrimônio da propriedade. Não somos contra insumos químicos, somos contra a quantidade e a forma que se usa, sem cuidar do solo. Precisamos melhorar matéria orgânica, ter raízes que aproveitem o perfil do solo em profundidade para buscar nutrientes. Temos que ter solo que guarda água, mas não encharca. Não se resolve em uma safra. A transição envolve plantas de cobertura, sistematização para evitar erosão, rotação de cultura e plantio direto sobre o verde e com solo sempre coberto, seja preferencialmente por plantas vivas ou palha. Bioinsumos são fundamentais, reduzem inseticida e fungicida.
Bons exemplos?
Temos agricultores com e 100 a 3 mil hectares que já adotam práticas assim de forma sistemática há mais de 10 anos. São possíveis e acessíveis. Reduzir de 80% a 90% insumos químicos eleva rentabilidade do agricultor de 30% a 40%.
Precisa de política pública para recuperar solo e irrigação?
Irrigação é válida, mas é mais barato ter solo que guarda água do que uma infraestrutura enorme e cara. Segundo técnicos que trabalham na recuperação do solo afetado pela enchente no Rio Grande do Sul, um centímetro de solo para ser construído leva 400 anos. Práticas regenerativas alimentam e aceleram o processo. É desafiador, em algumas áreas é melhor nem mais tentar produzir e focar nas possíveis. Envolve aumentar matéria orgânica, manter coberto, diversificar cultura, cuidar para que haja infiltração e capacidade de retenção de água. Não tem milagre.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: crise na Casas Bahia, Quero-Quero pisa no freio, reforma de hotel parada e mais
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)



