
Quem subestima o impacto do assunto ferrovias na sociedade gaúcha deveria ler os comentários que a coluna recebe dos leitores e deveria ter acompanhado o Tá na Mesa da Federação das Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul). O clima foi tenso, e a discussão elevou o tom em vários momentos, mas o encontro foi oportuno para reunir representantes do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) com o secretário Nacional de Ferrovias (vinculado ao Ministério dos Transportes), Leonardo Cezar Ribeiro, e o presidente da Infra SA (empresa do governo federal para projetos de infraestrutura), Jorge Bastos, figura de peso no evento.
Infelizmente, boa parte da discussão ficou sobre a disponibilização ou não de estudos para análise antes da audiência pública, que se aproxima, para o leilão da Malha Sul. Governo federal diz que está tudo disponível, Estados dizem que não acham. Foi bom o presidente da Infra SA estar, pois ficou amarrada uma reunião para esclarecer que ruído é esse, pois é seu órgão que faz os estudos. Foi pego de surpresa (não deveria, pois a reclamação do Sul já é de semanas), mas está certo ao dizer que é preciso valorizar que o assunto ferrovia voltou à pauta, após ter ficado décadas de lado.
O debate mais importante e que a sociedade precisa se informar é sobre o modelo econômico. Fatiar ou não a Malha Sul em três lotes? O Sul acha que isso deixará trechos sem interessados, o governo federal diz que não e que essa proposta inclusive afasta o monopólio que se configurou na concessão de três décadas que está com a Rumo e resultou em trilhos sucateados.
O secretário gaúcho de Logística e Transportes, Clóvis Magalhães, falou e repetiu que, como está o projeto, não vai funcionar. O secretário de Ferrovias rebateu que a malha do Estado é um "baita" ativo ferroviário, usando o termo gaúcho, e repetiu o que o ministro George Santoro tem dito à coluna: de que terá aporte financeiro público para deixar viável ao investidor. O vice-governador, Gabriel Souza, pediu para adiar o leilão e chegou a apostar com Ribeiro: "uma Coca-Cola Zero" que a contrapartida do governo não será suficiente.
O andamento não está azeitado entre os envolvidos, isso é claro. Mas ainda é tempo e a reunião deu uma ajuda nisso. Não se sabe a eficácia das manifestações na audiência pública, mas o secretário de Ferrovias garante que o martelo não está batido e que a proposta de divisão em lotes pode ser reavaliada.
Adiar o leilão é temerário, pois já foi difícil colocar a Malha Sul nesta remessa. Mais ainda é esperar até que saia o estudo que o Codesul quer fazer. Foi anunciado no ano passado pelo governo gaúcho, recém saiu o edital do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e a empresa terá até dois anos para finalizá-lo. Voltaremos a batalhar leilão em três anos? Para sair em quantos anos? A concessão à Rumo termina agora em fevereiro e terá um "puxadinho" de dois anos. Precisaremos de mais prorrogação para quem não quer saber daqui ou desistiremos de ferrovias quando a logística passará a ser o diferencial econômico de Estados, que não mais poderão dar incentivos fiscais após a reforma tributária. Estamos atrasados, temos que correr.
Em tempo, Ribeiro disse que a ideia ainda é, ao menos, lançar o edital do leilão em 2026. Vai depender, porém, do andamento da análise no Tribunal de Contas da União (TCU) após as audiências públicas.
Em tempo também, o presidente da Federasul, Rodrigo Sousa Costa, abraçou o assunto ferrovias ainda no ano passado como essencial para o futuro da economia gaúcha e tem topado várias provocações da coluna.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: RS fora de aporte bilionário da GM, fábrica falida e renovações de sede de bancos
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)




