
A jornalista Isadora Terra colabora com a colunista Giane Guerra, titular deste espaço.
A sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros começa a valer nesta quarta-feira (22). Apesar de ter alíquota menor e número maior de isenções em relação ao tarifaço anterior, a medida renova a incerteza entre exportadores do Rio Grande do Sul, que enfrentaram, no último ano, incontáveis vaivéns na política comercial de Donald Trump.
Uma é a calçadista H. Kuntzler, de Dois Irmãos. Com cerca de metade do faturamento vinculado à exportação, quase toda destinada aos Estados Unidos, a empresa diminuiu em 60% o comércio com os norte-americanos, encerrou duas linhas de produção e demitiu 150 funcionários desde que Trump sobretaxou em 50% as botas e sandálias da fabricante gaúcha. A companhia reforçou atuação no mercado interno e em países como Inglaterra, Austrália, Colômbia e Canadá para compensar as perdas. Concedeu descontos para manter parte dos clientes nos Estados Unidos, que teme perder um ano depois, com a nova tarifa em vigor.
— Fazíamos entre 35 e 40 mil pares ao mês para os Estados Unidos. Agora, está perto de 15 mil. Como vai ser daqui para frente, não temos visibilidade — diz o diretor da H. Kuntzler, Francisco Luiz Schneider, que estima que a empresa vai faturar 20% menos neste ano.
Caso semelhante ocorreu com a Sagi, fabricante porto-alegrense de moda praia. Segundo a fundadora da empresa, Pilar Sogo, os Estados Unidos respondiam por quase 90% das vendas antes do tarifaço. Hoje, está em 65%. Compradores migraram para fornecedores de outros países ou passaram a produzir internamente durante o período em que os produtos brasileiros perderam competitividade.
Como outras companhias, a Sagi reduziu equipes e rescindiu contratos com terceirizados. Para Pilar, no entanto, o principal efeito da disputa comercial foi o desgaste da relação entre empresas brasileiras e norte-americanas. Agora, com a nova taxação, planeja se organizar com ajuste de preço:
— Vamos tentar ajustar os valores e modelos de produção para tentar reduzir o custo — relata Pilar.

Na calçadista Anzetutto, de Novo Hamburgo, o tarifaço dos Estados Unidos despertou a busca por novos mercados. Desde então, a fabricante, que usa desde materiais mais comuns até peles de espécies exóticas para confeccionar seus produtos de couro, começou a enviar produtos para o Chile e aumentou a exportação para Itália, Portugal e Espanha, impulsionada pelo acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. Por outro lado, caíram à metade as vendas ao mercado norte-americano, a 10% do total.
— O primeiro tarifaço preocupou mais. Adequamos a produção e vamos esperar a poeira baixar. Se não continuarmos trabalhando com os Estados Unidos, fechar a fábrica não é opção — afirma a consultora de comunicação e marketing da Anzetutto, Rosa Lemes.

Tarifa pode chegar a 37,5%
Além da sobretaxa de 25%, uma outra, de 12,5%, está em análise pelos Estados Unidos, resultado de investigação que cita o uso de trabalho forçado e envolve tarifa que deve ser aplicada ao Brasil e outras 59 economias nos próximos dias. Se confirmada, elevará a alíquota total sobre alguns produtos brasileiros a 37,5%.
*Colaborou João Pedro Cecchini
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)



