
Depois de meses evitando até mencionar a Lei da Reciprocidade, o governo Lula passou a ameaçar usar o instrumento contra os Estados Unidos após a nova escalada tarifária proposta por Washington, com duas sobretaxas adicionais de 12,5% e 25% a partir de julho. A legislação já estava encaminhada e foi aprovada no ano passado justamente em resposta ao tarifaço de Donald Trump.
Na prática, se acionada, a lei tem potencial para causar impactos sobre exportadores norte-americanos. Os Estados Unidos vendem uma ampla variedade de produtos ao Brasil. Em muitos casos, há outros fornecedores. Em outros, não.
O Brasil importa dos norte-americanos alimentos, de frutas a laticínios, além de máquinas, produtos químicos e plásticos. Em setores nos quais a substituição de fornecedores não seja simples, importadores brasileiros tendem a reagir da mesma forma que empresas norte-americanas reagiram quando produtos brasileiros ficaram mais caros por causa das tarifas de Trump.
Há ainda áreas especialmente sensíveis para o consumidor final — e, por consequência, para o governo em ano de eleição. Tecnologia é uma. Como retaliar Apple, Microsoft, Google, Amazon e Meta? O mesmo no farmacêutico, que teria reflexos na saúde pública.
A Lei da Reciprocidade vai além de sobretaxas. Também abre espaço a sanções comerciais, restrições a compras e medidas consideradas mais duras, como limitações de patentes e outros direitos de propriedade intelectual — instrumento que atinge interesses estratégicos de empresas norte-americanas.
Usar a retaliação, porém, elevaria a tensão, e os Estados Unidos estão entre os principais compradores de produtos brasileiros.
Na Espanha
A guerra comercial repercute aqui na Espanha, onde a coluna faz a cobertura do South Summit Madri. O jornal El País escreveu que, desde que Trump assumiu a Casa Branca, a relação dos Estados Unidos com o Brasil oscila como uma montanha-russa. Melhora lentamente e com muita diplomacia, mas piora a toda velocidade a cada golpe de Washington.
Os espanhóis também sentem a sentem a pressão sobre Cuba. A ameaça de sanções fez o país europeu reduzir seus investimentos lá. Nesta semana, as empresas espanholas Meliá e Iberostar deixaram cerca de 40 hotéis que administravam em Cuba, que tem o turismo como sua principal atividade econômica.
* A coluna viajou a Madri a convite da IE University
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: fábrica de chips, licença de prédio anulada e audiências do porto de Arroio do Sal
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)




