
Demorou alguns meses, mas o endividamento das famílias bateu na popularidade do presidente Lula e, agora, o governo federal corre para lançar medidas que contenham a sangria. Alguns chamam de “Bolsa Dívida”. A ferida foi aberta por crédito fácil demais; consignado CLT sem restrições de juro e comprometimento da renda; e pelo avanço das bets (apostas esportivas online).
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, encabeça a montagem do plano. Apresentou a Lula e ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já que envolve liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Marinho sempre criticou mexer neste colchão, assim como o setor imobiliário, que usa o recurso para financiar a casa própria. Uma medida é liberar até 20% do FGTS para pagar dívidas do trabalhador com renda até cinco salários mínimos (R$ 8.105). Serão R$ 7 bilhões.
O pacotão deve também propor unificação das dívidas, desconto a ser dado por bancos e uma garantia do governo, que talvez seja do Fundo Garantidor de Operações (FGO). O problema é que ele já cobre o antigo Desenrola, programa anterior de renegociação, e o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Avalia-se um mecanismo para restringir que beneficiados apostem em bets, para que não se endividem na semana seguinte e o esforço perca sentido.
O que o governo federal deveria mesmo fazer, mas provavelmente não o fará, ainda mais em ano de eleição? Conter o crédito. Se facilitou demais. Deixou-se na mão do mercado algo que a voracidade financeira descontrola. O consignado CLT virou um produto ótimo. Todo mundo oferece, não apenas bancos que cobram taxas razoáveis. Um crédito com garantia de desconto em folha e sem teto de juro. Está no portfólio das corretoras que, no ano passado, vendiam CDB do Banco Master.
Quando se limitou a taxa do cheque especial foi um "auê", o lucro foi então buscado no cartão de crédito e, agora, no consignado. Estão oferecendo crédito pelas redes sociais, nas ruas do Centro e até em igrejas. Compre um batom Avon aqui e ali tome um empréstimo.
Em tempo, não adianta o governo federal só alongar a dívida dos consumidores para que possam tomar ainda mais empréstimos, como alguns feirões de renegociação fazem. Do Desenrola para cá, o Brasil ganhou 9 milhões de inadimplentes.
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