As últimas duas semanas têm sido tensas para o setor de combustíveis e para quem depende dele. Há falta de diesel na lavoura, mas a limitação de venda já chega a postos e transportadoras de cargas. O programa Acerto de Contas, da Rádio Gaúcha, ouviu o presidente-executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araujo.

Explique essa pressão sobre preços?
Acompanhamos desde 2017 o custo para trazer o produto do mercado internacional para os principais portos brasileiros e comparamos com os preços praticados pelas refinarias nacionais. É o que chamamos de defasagem. Agora houve uma explosão de preços com a guerra no Irã, com o petróleo saltando de US$ 55 a US$ 119. Constatamos enorme defasagem e os preços no mercado nacional precisam subir.
Petrobras aumentou o diesel, mas pouco. O que ocorrerá no mercado se não subir mais?
A estatal é agente dominante, responsável pela produção de 55% do diesel no Brasil. Depois, tem 30% importado e 15% produzido pelas refinarias privadas. Do importado, a Petrobras compra até metade, então acaba responsável pela comercialização de até 70% do volume nacional. Seu preço é referência. Se tem aumento substancial no internacional e no custo do importado e das refinarias privadas, Petrobras não mexer impacta importações, gera incerteza e dificuldade de comercialização.
A alta de sexta-feira ameniza o desajuste?
A defasagem indicava R$ 2,34. A Petrobras subiu R$ 0,38. Então, a importação segue com risco elevado, potencializado porque a Petrobras, no meio do caminho, acaba fazendo leilão (ocorreu um em Canoas na semana passada). Distribuidoras e importadoras não têm previsibilidade do que será ofertado a preço artificialmente baixo. Ou seja, o aumento foi pequeno, cenário segue de insegurança.
E o governo federal ter zerado imposto e dado subvenção?
Minimiza um pouco. Importadores terão possibilidade de ressarcimento de R$ 0,32. Mas ainda fica longe da defasagem.
Há escassez de diesel, especialmente para as lavouras.
Essa situação continua. Sigo recebendo telefonemas do Rio Grande do Sul e vou repetir o que digo a eles: o Estado não depende de produto importado. A refinaria da Petrobras (Refap, em Canoas) atende à demanda e até carrega navios para outras regiões. Então, não é falta de importação que gerou o problema aí.
Então, é aumento da demanda ou retenção de estoque para vender mais caro?
É natural ter antecipação de compra quando há expectativa de aumento de preço. O que tenho de dados é que houve corrida para aquisição.
Mas se falta na lavoura e distribuidoras colocam cotas, é possível o agro importar diesel?
Eu fiz importações pelo porto de Rio Grande há cerca de 10 anos, precisa ver como está a tancagem lá. Mas não terá preço tão baixo como na Refap. Ficará cerca de R$ 2 acima e tem o frete até o ponto de consumo, mas é uma possibilidade de suprimento adicional. Mas, olhando de longe, vejo que é preciso diálogo envolvendo refinaria e distribuidores para garantir o abastecimento aí.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: licenciamento de fábrica de R$ 27 bi, novos voos e data center atrasado
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)



