
Ter estiagem no Rio Grande do Sul tornou-se o usual. O extraordinário agora é não ter. E, pelas projeções de autoridades do clima e do agronegócio, esta será a nova realidade. Mais uma vez, estamos falando nas medidas imediatas, com decretos de emergência e pedidos de ajuda financeira. Mais uma vez, a coluna provoca para discutir o longo prazo, a prevenção.
Há pontas soltas na discussão. O presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho, tem dito que divergências jurídicas e ambientais foram vencidas. Em um dos municípios mais afetados agora, o secretário de Agricultura e vice-prefeito de Júlio de Castilhos, José Antônio Razia, diz que o produtor local ainda enfrenta esses problemas para, por exemplo, reservar água.
Já o secretário de Infraestrutura e Agricultura de São Borja, Carlos Bestetti, diz que a cidade tem uma ampla área de soja irrigada, mas que o pivô termina a lavoura e o início dela já está seco de novo. Não teria outra forma de irrigação? Ou mesmo comprar outro pivô? É caro, sim. Para investir, a ampla maioria precisa de crédito. Mas dizer que o endividamento rural impede o investimento em irrigação é um tanto simplista. A análise de crédito pelo banco é diferente. O cliente não está pedindo empréstimo para pagar outra dívida de uma safra perdida. Ele quer investir para produzir mais e, com isso, conseguirá pagar seu financiamento.
— A base da análise até é a mesma, mas as instituições financeiras certamente preferem aprovar créditos que trarão maior segurança ou renda ao cliente, alavancando produção. Essa é a linha de raciocínio. Irrigação é um belo investimento, assim como armazenagem — conta o coordenador Estratégico para o Rio Grande do Sul de Negócios Agro do Sicoob, Felipe Amorim.
Aliás, é preciso colocar isso na agenda de prioridades do produtor ou não adianta nem ter linha de crédito subsidiada direcionada. As entidades setoriais têm força importante. Velho, da Farsul, e Rodrigo Sousa Costa, presidente da Federasul, são exemplos de produtores com irrigação. Em Lavras do Sul, a coluna ouviu do executivo de uma feira local que a irrigação estava em quarto ou quinto lugar na lista de investimento dos pecuaristas.
Questionado sobre desenvolvimento de variedades mais resistentes de soja, como as usadas no Nordeste, o secretário Bestetti diz que a Embrapa tem testes em São Borja, mas ainda não sabe os resultados. Considerando os últimos anos, isso já deveria estar melhor encaminhado e de conhecimento disseminado.
Um dirigente de associação de soja do Rio Grande do Sul disse recentemente à coluna que atualmente está plantando somente na Bahia. A Embrapa tem diretrizes para agricultura de sequeiro (que vem de seca) no Nordeste, com foco na gestão de riscos climáticos para cultivo em áreas com escassez hídrica.
Tudo isso custa, mas tira o custo desta trava na economia. O ex-secretário estadual da Fazenda Aod Cunha calcula que, sem as secas entre 2010 e 2023, o PIB gaúcho teria crescido 39,66%, mas avançou apenas 24,21%.
Quem vai juntar todas essas pontas soltas e organizar a casa, ou melhor, a lavoura? Precisamos parar de pedir ajuda a São Pedro, como um dos entrevistados do Gaúcha Atualidade. Quando tivermos safra cheia mesmo em ano de estiagem, teremos alcançado uma agropecuária moderna e adaptada à realidade climática.
Confira as entrevistas:
José Antônio Razia, secretário de Agricultura e vice-prefeito de Júlio de Castilhos
Carlos Bestetti, secretário de Infraestrutura e Agricultura de São Borja
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: armadilha do Master, disparada da conta de luz e súper em antiga taQi
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)



