
Passou de um milhão o número de empréstimos concedidos a trabalhadores no crédito consignado CLT, lançado pelo governo federal há um ano. São 485 mil pessoas que solicitaram e tiveram o crédito liberado, segundo dados enviados à coluna pelo Ministério do Trabalho. A soma das dívidas fica em R$ 4,822 bilhões.
A média do empréstimo fica em R$ 4.539, com, também em média, 23 parcelas para desconto na folha de pagamento. Como há pessoas com mais de um, o valor devido por trabalhador é de R$ 9.937. A parcela média fica em R$ 194.
O problema
O consignado CLT tem sido uma dor de cabeça para muitos empresários. Reclamam à coluna do impacto na renda dos clientes, mas principalmente na dos funcionários. O endividamento disparou e a qualidade dos empréstimos está ruim, porque há taxas de juro absurdas sendo cobradas por financeiras.
A ideia deste empréstimo era boa, permitindo que o trabalhador escolhesse o banco sem depender de acordo da empresa com uma instituição específica. Foi criada até uma plataforma para estimular os bancos e financeiras a “concorrerem” entre si, oferecendo juro menor. Bancos públicos, como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, estão até oferecendo juros baixos, chegando a 2%, mas financeiras estão abusando da falta de educação financeira dos trabalhadores.
Presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), Lindonor Peruzzo Júnior conta que já teve funcionário pegando consignado CLT com taxa de 15,7% ao mês. A dívida fica impagável e a renda, comprometida. Ainda que tenha um limite do salário disponível, prestações ficam longas demais e a folha de pagamento usualmente tem outros descontos.
— E as pessoas não estão tomando este empréstimo para pagar outras dívidas mais caras como deveria ser. Estão fazendo novos gastos ou mesmo gastando em bets (apostas online) — relata Peruzzo.
A saída
Ainda que seja ano eleitoral, em algum momento o governo federal terá que recalcular rota no programa do consignado CLT. A principal medida é limitar a taxa de juro dos empréstimos, como deveria ser desde a criação. Outra seria vincular a tomada deste crédito ao pagamento de dívidas mais caras. Caso contrário, um estouro vai acontecer. Ainda que o emprego e a renda estejam recordes (no Brasil e no Rio Grande do Sul), o endividamento e a inadimplência também estão. Este cenário, por si só, evidencia um desajuste.
Orientação
Trabalhador, não pegue empréstimo com juro alto. Se já pegou, tente levá-lo para outro banco por meio da portabilidade.
Caso real: uma trabalhadora com dois filhos e salário de R$ 2,7 mil tomou um empréstimo de R$ 29 mil. Com o juro, ficará em R$ 83 mil o valor a ser pago. Quando quitará? Nunca. Provavelmente, vai sair do emprego formal e pegar bicos para não ter mais o desconto da parcela na renda do mês. A dívida, porém, seguirá existindo e rolando juro até que pegue um novo emprego, o que ela não vai querer.
Colaboração de Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br)
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)
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