Questionada por motivações políticas ou por mostrar mercado de trabalho aquecido enquanto outros indicadores da economia não estão bons, a taxa de desemprego do IBGE segue caindo para as mínimas históricas da pesquisa, iniciada em 2012. O Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, entrevistou o coordenador da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do Rio Grande do Sul, Walter Rodrigues.
Como vê as críticas?
Em primeiro lugar, o IBGE não é governo. É Estado brasileiro, um órgão técnico onde trabalham servidores de carreira. Eu mesmo sou coordenador da Pnad Contínua desde 2014. Nosso superintendente estadual se aposentou após mais de 30 anos no cargo. Os cargos são técnicos, sem ingerências de governos. A segunda coisa que tem que ficar bem clara é que o IBGE segue o padrão internacional da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que todas as pesquisas sobre o mercado de trabalho devem seguir para serem confiáveis e comparáveis.
Como pesquisam o desemprego?
É uma pesquisa domiciliar. Vamos até a casa das pessoas perguntar se estão trabalhando ou não, as características do trabalho, se estão procurando trabalho ou não, se poderiam começar a trabalhar ou porque não estão procurando trabalho. Uma vantagem é medirmos o trabalho informal, característica negativa do mercado de trabalho brasileiro. Ainda que esteja decrescente, estamos com 37% dos trabalhadores na informalidade (no Rio Grande do Sul, é 30%), sem carteira assinada, sem CNPJ, sem registro algum. Sem nossa pesquisa, essas pessoas ficariam invisíveis.
Como é calculada a taxa?
Primeiro, temos um contingente de pessoas em idade de trabalhar, com 14 anos ou mais. Depois, tem a divisão de quem está na força de trabalho — trabalhando ou buscando trabalho com medidas concretas, não só olhando o jornal e esperando — e quem está fora. A força de trabalho é o nosso "100%". O índice é quanto desta força de trabalho está desempregada.
Como entra quem ganha Bolsa Família?
É uma questão que aparece muito em "fake news" (notícias falsas). Agora uma pessoa de quem eu não esperava tamanha bobagem afirmou que quem recebe Bolsa Família conta como trabalhando. Na verdade, vai depender do que o beneficiário está fazendo. Não é classificado automaticamente na pesquisa. Se está trabalhando, é ocupado. A pessoa pode estar trabalhando e ao mesmo tempo recebendo Bolsa Família, porque tem corte de renda per capita. Se tenho uma família de cinco pessoas com renda de R$ 1 mil, sou elegível. Tem ainda a transição de quem consegue trabalho e segue com o beneficio por um tempo. Já se está recebendo Bolsa Família e procurando trabalho, será um desempregado. Se não está trabalhando nem procurando, não está dentro da força de trabalho.
Em alguns casos poderia estar...
Aí temos outra classificação: força de trabalho potencial. Um exemplo: uma mãe de um domicílio que recebe Bolsa Família. Perguntamos se está trabalhando, diz que não. Perguntaremos o motivo. Ela diz, neste exemplo, que tem que cuidar dos filhos, que não tem quem fique no turno inverso da escola, que se tivesse como resolver poderia trabalhar. Então, ela está na força de trabalho potencial. Pode ser ainda um desalentado, que procurou trabalho durante muito tempo, não encontrou e desistiu. Mas este grupo, felizmente, também vem caindo.
Há ainda pessoas que ficam na informalidade para manter o Bolsa Família, o que tem sido uma reclamação para preencher vagas de carteira assinada. Aliás, estamos com pleno emprego?
Não gosto desta expressão. Temos uma desigualdade regional, se olharmos com uma lupa. A taxa de desemprego de Porto Alegre é maior do que em várias regiões do Estado, chega a ser o dobro e até o triplo. Temos desigualdade por sexo, tanto na taxa quanto nos rendimentos, por idade e por grau de instrução. É reflexo da sociedade.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: gigante das farmácias, esperança para usina em Rio Grande e um shopping a céu aberto
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)





