Ao visitar uma comunidade na floresta amazônica, a coluna viu a mudança boa que uma empresa pode fazer na economia local. De um passeio turístico a Boa Vista do Acará, onde 48 famílias fornecem à Natura, surgiu o interesse por saber mais da iniciativa da empresa, gigante no setor de higiene e beleza. Então, na COP30, aqui em Belém, o Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, ouviu o gerente sênior de Sustentabilidade, Geraldo Aleandro, que é enfático: “A floresta tem mais valor em pé do que derrubada.”

Empresas apontam dificuldades para investir em sustentabilidade, como falta de incentivo de governos e alto custo. Como vocês lidam com essas questões?
A Natura fez um movimento muito interessante de colocar a biodiversidade dentro do fluxo do nosso sistema de negócio. O que vocês viram lá na comunidade de Acará não é algo paralelo ao nosso negócio, é algo que alimenta todos os dias o coração do nosso sistema. Há mais de 25 anos, a Natura desenvolve um relacionamento com 45 comunidades daqui, que nos ajudam a preservar 2,2 milhões de hectares de floresta amazônica.
E o custo que isso gera, que acaba inibindo outras empresas de fazerem o mesmo?
É parte da nossa proposta de valor. Conseguimos integrar a biodiversidade na nossa cadeia de valor para consumidores e para a comunidade. Vocês foram na comunidade e já conheceram a pataqueira e a priprioca, insumos da alta perfumaria da Natura. Temos uma equipe técnica que acompanha a comunidade, o seu desenvolvimento territorial, a sua capacidade técnica de produção. Construímos recentemente o projeto Raízes para a transição geracional dentro da comunidade. De outro lado, construímos demanda para essa oferta com uma equipe de cientistas aqui e lá no nosso laboratório de Cajamar, que pesquisa as possibilidades da sociobiodiversidade fazer parte dos produtos.
E para vendê-los?
Pesquisamos como fazer com que esses produtos sejam desejáveis para a população brasileira. Um dado legal: dos 2 mil produtos da Natura, mil têm algum ativo da sociobiodiversidade da Amazônia. Tem cacau, andiroba, jatobá, tucumã… Quando você fala de competitividade, eles fazem parte da nossa proposta de valor. Os insumos da Amazônia viram “claim” (uma vantagem complementar) de produto, viram performance cosmética. E olha só: parte das tampas de plástico do Kayak vem de plástico retirado dos rios da Amazônia.
Paulo Arara repetiu várias vezes que a empresa é boa para a comunidade, dá cursos e levou à criação de uma associação até para serem feitos os pagamentos. Por que atuar neste escopo todo?
É uma relação de longo prazo, de décadas com a comunidade. As iniciativas são para incrementar a capacidade local de desenvolvimento. Já implementamos ou ajudamos a implementar 21 agroindústrias. A comunidade planta, colhe, processa em óleos e manteigas, que seriam fabricados em outros lugares. Isso incrementa a geração e distribuição de renda local, pois não vendem para a Natura somente os insumos, mas sim eles processados. A nossa lógica é de que é possível gerar desenvolvimento e renda na Amazônia a partir da floresta em pé. Todos nossos projetos têm essa premissa. Em pé, a floresta tem mais valor do que derrubada.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: falência de ervateira, novo comando da CDL e farmácias versus supermercados
Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)




