
É realmente difícil para o consumidor entender por que a conta de luz não para de subir se o Brasil está com excesso de energia e, inclusive, precisando cortar a geração em alguns momentos. A tarifa, segundo a pesquisa de inflação do IBGE, ficou 18,32% mais cara em 2025 na região metropolitana de Porto Alegre, cinco vezes a inflação do período. O problema é complexo e a resposta é má gestão do sistema elétrico, mas vamos falar um pouco mais.
Há excesso de capacidade, com geração acima do consumo em alguns momentos, com risco de sobrecarga e até apagão, especialmente quando há sol e vento, que turbinam as usinas solares e eólicas. Em uma busca (justa) pela transição energética, estas fontes foram estimuladas com incentivos financeiros, inclusive para geração por famílias e pequenos negócios, na chamada geração distribuída (GD). Nem sempre nestes horários fortes de geração se tem alta do consumo. Aliás, às vezes, é até em horário oposto. A população usa mais energia quando não tem sol, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem que acionar térmicas caras e poluidoras.
O planejamento, porém, não incentivou a armazenagem, seja nas próprias hidrelétricas, seja em uma bateria na residência das pessoas. Gera, guarda e usa depois. O preço vem caindo, mas o uso ainda não é disseminado. Agora, se corre atrás de tecnologias que tornem eficiente e reduzam o custo de estocar vento e sol (sim, lembra-se aqui da tão criticada fala da ex-presidente Dilma Rousseff).
Compreende-se a preocupação do mercado financeiro, das grandes empresas e do impacto no encargo na conta de luz de todos ao cortar energia e ressarcir as empresas que estão deixando de gerá-la. Porém, é reflexo de mau planejamento, que provoca a bizarrice de cortar energia renovável e inibir a descentralização da geração de energia.
Quem são os interessados que não avance o off grid (quando a bateria permite desconectar-se da rede elétrica)? Isso, em um modo bem avançado, traria também a segurança energética, que agora é usada como argumento para se seguir incentivando energias poluidoras. Lembre-se da teoria da destruição criativa, que ganhou o Nobel de Economia ao alertar para as forças que travam transições e progressos porque não querem ficar obsoletas.
É para incentivar eternamente a energia renovável distribuída? Claro que não. A retirada gradual até já começou. Incentivos públicos, se bem feitos, vão sendo reduzidos e eliminados. São também realocados, como devem ser agora para armazenamento.
Aliás, aqui cabe a ponderação: se quer retirar incentivo de energia renovável e não se dá para armazenagem, mas a medida provisória 1.304, em um jabuti que entrou na finaleira, prorrogou a 2040 o estímulo a térmicas a carvão. Falta coerência, mas nunca falha a solução mais comum no setor elétrico: jogar mais uma taxa na conta de luz do consumidor.
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)


