
Com exceção de alguns dias, a bolsa de valores de São Paulo, B3, tem batido recorde histórico e o dólar tem caído, apesar das preocupações com a economia brasileira. Trata-se de um movimento mundial, explicou ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, o sócio-diretor da gestora de investimentos Quantitas Asset, Wagner Salaverry.
Por que a bolsa brasileira tem batido recorde?
Não é um fenômeno brasileiro, é mundial e está ocorrendo em vários países emergentes e até na Europa. Está relacionado à saída de capital dos Estados Unidos para o resto do mundo. Neste ano, quase R$ 30 bilhões de estrangeiros entraram na bolsa brasileira. Além do aumento do preço das ações em reais, a queda do valor do dólar ajudou muito. O real ganha preço e o investidor ganha duas vezes.
O que atrai o dinheiro "gringo" para cá?
As tantas mudanças do presidente Donald Trump que não se esperava. Os investidores tinham muito capital alocado nos Estados Unidos, começaram a tirar e colocar no mundo inteiro. O Brasil, por consequência, se beneficia. Trump está prometendo aumentar ainda mais as tarifas. Tem movimentos para ocorrerem nos próximos dias.
E o investidor brasileiro?
O institucional, os grandes fundos e instituições financeiras tiraram recursos da bolsa brasileira. E as pessoas físicas colocaram pouco. Então, este recorde da bolsa não se deve à melhora da situação brasileira ou a investidores do Brasil gostarem mais de ações. Ao contrário. Para ter ideia, de R$ 9 trilhões em fundos de investimento de todos os tipos aqui no Brasil, só 6%, em torno de R$ 550 bilhões, estão em fundos de ações. É um dos níveis mais baixos do histórico do levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
Qual impacto no dólar?
É difícil ter ideia, pois é a pior variável para se estimar porque sofre influência de todas as demais da economia. O que mais se olha é o chamado excepcionalismo americano, período de grande crescimento dos Estados Unidos, de atração de capital, de serem vistos como um porto seguro para os investidores do mundo inteiro, seja em ações ou investimento em títulos de dívida. Isso começou a ser questionado. Eles têm um problema fiscal muito grande e Trump está propondo aumento ainda mais de gastos com redução de imposto. Os investidores estão exigindo juro maior e prazo menor, ou retirando da bolsa, mesmo que ela também esteja na máxima.
Quais ações brasileiras os estrangeiros estão comprando?
O mercado brasileiro é muito pequeno. O dos Estados Unidos é absurdamente grande. Podemos colocar a Europa toda, a Ásia e os mercados emergentes dentro. Então, quando um investidor decide tirar dinheiro de lá, é tanto que sai que qualquer lugar no qual ele coloque sentirá diferença. Ele não diz: “Olha, vou procurar a melhor empresa e o melhor setor para colocar no Brasil”. É um investidor passivo, que diz: “Olha, eu quero tirar dos Estados Unidos, quero colocar um pouco na Europa, um pouco em emergentes”. Naturalmente, as ações mais representativas do Ibovespa vão ganhar como um todo, um fluxo.
E esse investidor brasileiro que está saindo da bolsa está colocando dinheiro onde?
Ele já saiu quando o presidente Lula foi eleito e depois com uma série de problemas fiscais, como no final do ano passado. As pessoas físicas estão muito na renda fixa porque a taxa de juro está alta. Quem tem condições de deixar por prazo longo conseguirá ganhar por muito tempo a inflação mais 7% de juro ao ano, uma taxa muito alta. Falta também educação financeira.
Por quê?
As pessoas só investem na bolsa quando percebem que começou a subir e não fazem o dever de casa de ter uma alocação fixa nas diversas classes de ativos. Então, quando a bolsa cai, ela vende na baixa. Quando sobe, acha que está bom e compra na metade do movimento de alta ou já no topo e perde dinheiro. Mesmo investidores de alta renda entram e saem na hora errada.
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)

