
Alvo de operação que apreendeu quase 270 quilos de alimentos, a Juro de Dedinho enfrenta uma crise. A doceria tem fábrica e lojas em shoppings de Porto Alegre. Após a coluna ter noticiado o caso na semana passada, ouviu o sócio Matheus Cordeiro para os devidos contrapontos. Confira trechos abaixo e a íntegra da entrevista no final da coluna.
Como foi enfrentar a operação?
Não consigo estimar o impacto na empresa. Recebi mensagens pela manhã de funcionários dizendo que a Vigilância (Sanitária) estava no Barra (BarraShoppingSul), no Iguatemi e na matriz, e para eu ir trazer os esclarecimentos. Já vinha dialogando e mandando documentos, não tenho que criticar o trabalho deles, mas chegar na empresa e ter Polícia Civil, Vigilância, Procon, 10, 15 agentes, caiu meu chão.
A Secretaria Municipal da Saúde disse que a empresa era reincidente. Já tiveram problemas antes?
Não, tivemos uma visita da Vigilância em 16 de outubro porque solicitamos alvará. É comum que tenha algumas coisas em desacordo, eles apontaram e solicitaram documentos. No mesmo dia, mandamos e seguimos mandando. Pediram alterações dos CNAEs (classificação de atividade econômica) e disseram que o local era pequeno. Fomos para uma sede maior e contratamos uma engenheira de alimentos, implementamos mais de 80 protocolos. No início do ano, mandaram e-mail falando: "Olha, fomos no endereço antigo e não encontramos vocês". Aí, começaram os problemas. Falamos que havíamos nos mudado como solicitaram e pediram mais uma lista de informações. Mandamos por e-mail e, duas semanas depois, veio a operação. Nunca interrompemos contato. Somos uma empresa pequena, mas com visibilidade e clientes próximos. Meu pai consome todo santo dia e é diabético. Construímos uma reputação e assusta a repercussão do ocorrido.
Perguntou à Vigilância, então, o motivo da operação?
Sim e me falaram que era procedimento padrão. Quando ela faz a verificação, diz que volta em mais ou menos 30 dias. Quando voltaram, já tínhamos feito as adaptações, as coisas estavam corretas, tinha as alterações dos CNAEs, que eram mais simples. Fizemos. Só que dessa vez na operação foram uma série de órgãos públicos.
Vocês deixaram produtos passar da validade, como apontado?
Não, somos rigorosos. Deixamos produtos (vencidos) separados em área específica de descarte na indústria. Na loja, deixamos separados para retornar à matriz para computar no controle de estoque e inutilizar. Na foto que circula, é a data de fabricação de 24 de maio e, embaixo, tem o prazo de 30 dias para vencimento. Induz ao erro, mas já estamos mudando completamente a rotulagem.
E sobre a presença de glúten?
Nada entra na cozinha com glúten. O que ocorreu é que recebemos produtos de diversos fornecedores. Tem um único produto, o da foto, que vai fermento. Tínhamos esse (fermento que tem glúten) ali dentro para ser descartado e tínhamos outro que era totalmente sem glúten, que é o que usamos.
Rebate, então, a informação da Vigilância Sanitária de que estava sendo usado glúten na fabricação?
Havia na empresa esse produto para descarte, mas não estava sendo usado na produção. Até conversei com eles, mas falaram: "Não tem como assegurar que tu não usou". Imediatamente peguei todos os produtos e levei para o laboratório credenciado. O laudo deu negativo para presença de glúten.
Mas o produto estava ali. A cozinha não deveria ser totalmente livre de glúten?
Exatamente, 100% livre de glúten.
E ela não estava.
Na realidade, estava. Porque a gente "laudou" todos os produtos, inclusive esse item específico, e deu ausência de glúten.
Por que alimentos foram inutilizados pela Vigilância?
Vamos pegar "260 quilos de alimentos apreendidos". O que faz parecer para o consumidor? Parece que a Juro só fazia coisa com açúcar, glúten e lactose. Que nos tornamos um monstro que faz tudo errado. O que são estes itens? Tinha mais de mil trufas que fazemos diariamente de forma manual. Mas a Vigilância falou "não posso garantir que essas trufas que estão aqui na geladeira foram produzidas ontem". Aí, fizeram o procedimento padrão de colocar no chão, rasgar o saco e colocar algum produto químico. Grande parte era de produtos totalmente aptos para consumo. É o papel seguir à risca, mas ficamos chateados com o desperdício.
E o uso de refresco em pó quando a marca se apresenta como uma doceria saudável? E não informava que tinha fenilalanina, que provoca reação em alguns consumidores.
Realmente, a trufa de maracujá e a tortinha de limão eram feitas antes com fruta natural. Fizemos um teste às cegas e os clientes, por unanimidade, acharam melhor o refresco. O posicionamento da Juro é uma empresa sem açúcar, sem glúten e sem lactose.
A empresa se coloca como saudável sim, inclusive nas redes.
É que o saudável é ser sem açúcar, sem glúten, sem lactose.
Não, não é.
Mas nós já descartamos totalmente este item, vamos reformular como eram as receitas antigas. E a presença que tu citou desse elemento, de fato, foi um equívoco da empresa.
A empresa se sente injustiçada? Pretende rebater de alguma forma a Operação Promessa?
Eu não diria injustiça. É que hoje, com a forma como é divulgado na internet, as pessoas tiram conclusões. Por isso, agradeço a oportunidade de trazer contrapontos. Existe "um quê" de verdade, mas as pessoas começam a criar e vazar no WhatsApp. Perdemos totalmente o controle e a credibilidade. Trabalhamos com famílias, a nossa chefe de produção estava em prantos chorando. Sempre prezamos pelo certo, sou engenheiro civil, um cara muito processual. Vamos continuar correndo, adequando mais e mais.
A entrevista na íntegra:
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
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