
Presidente da Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV), Sérgio Galbinski é um dos membros do grupo de trabalho para enfrentamento à pandemia criado pelo Governo do Estado. Vendo sempre "a metade cheia do copo", Galbinski fala que é "melhor vender 50% do que vender 0%". Para o programa Acerto de Contas (domingos, às 6h, na Rádio Gaúcha), o presidente da entidade falou sobre como está vendo a reabertura do varejo não essencial, e comentou também sobre o fenômeno de "revenge spending" e as transformações digitais. Confira:
Com o andar da carruagem dos decretos estadual e municipais, como o presidente tem visto o avanço da reabertura do varejo chamado de não essencial?
Nós já estávamos há cinco meses fechados, reabrindo, em Porto Alegre, apenas um mês. Algumas regiões do Rio Grande do Sul se mantiveram abertas e algumas ficaram em bandeira vermelha. Há duas semanas, o governador autorizou que cidades em bandeira vermelha pudessem abrir o comércio não essencial por alguns dias. Isso foi a melhor notícia que nós tivemos no mês. Porque o comércio não essencial estava fechado e sem entrada alguma de dinheiro, muitas empresas já estavam desistindo de operar. Muitas empresas tiveram que comprar estoques novos, liquidar os antigos, mas, pelo menos, temos que ver isso como positivo. Temos que olhar o copo meio cheio. Melhor operar e vender 50% do normal do ano passado do que não vender nada. A nossa expectativa de venda inicial para as lojas que estão abrindo é iniciar com aproximadamente 30%, chegando, em uma semana, a até 50%. As cidades que não tiveram que fechar, que se mantiveram em bandeira laranja ou amarela, estão vendendo entre 60% e 70% do normal. Nós vamos chegar, talvez daqui a um ano, no normal. Claro que muitas empresas vão deixar de existir até lá.
Ouça a entrevista completa para o programa Acerto de Contas (domingos, às 6h, na Rádio Gaúcha):
Não é a primeira vez que o presidente fala de olhar o copo meio cheio. Há quem diga que isso é aceitar demais e tem uma postura mais reivindicatória. Por que o presidente prefere essa outra postura?
Nós temos que manter sempre o copo meio cheio. O presidente de uma entidade tem que ser otimista, transmitir otimismo para os representados. Não adianta nós sermos um modelo de presidente que fica só reclamando sem sugerir opções. Temos que manter sempre o canal de comunicação aberto com o Governo do Estado. Nós fazemos parte do grupo covid-19, onde está o governador, secretários e alguns deputados. Conseguimos revindicar algumas coisas. Nós fomos no assunto do chocolate de Páscoa, na questão de experimentar roupas e calçados, e conseguimos a liberação com os devidos protocolos. Não acreditamos que seja o caso de só reclamar ou quebrar os pratos, fechando portas. O terceiro setor da sociedade organizada, do qual fazemos parte como entidade, tem por objetivo representar o grupo para orientar ou sugerir para o governo atitudes que possam facilitar para os empresários.
A projeção do CEO do Iguatemi, Carlos Jereissati, é de que as vendas atinjam 80% do período pré-pandemia em setembro. Há alguma forma de alcançar esse percentual?
Esse objetivo para setembro é muito difícil. As lojas das cidades que ficaram abertas estão vendendo entre 50% e 60%. As pessoas estão vindo desse período com um poder aquisitivo reduzido. Teve muito desemprego, muitas empresas fecharam. Profissionais liberais tiveram que diminuir as atividades. Além disso, as pessoas ainda têm medo do acesso às lojas, ficam perguntando se podem experimentar, se podem encostar na mercadoria. Os clientes trocarão os hábitos de consumo porque mudaram os hábitos de vida. Quem trabalha em home office não vai a um bufê, não caminha, não olha vitrines. Temos uma grande mudança de consumo motivada por hábitos de vida, e, além disso, menor poder aquisitivo. Nós tivemos um período de falta de oferta, com as lojas fechadas, e agora temos um período de falta de demanda, porque as pessoas tiveram o poder aquisitivo reduzido.
O presidente acredita em um movimento chamado de revenge spending quando passar ou ainda na pandemia? Esse "consumo por vingança" que chegaram a identificar na China, com as pessoas querendo se presentear depois de um período tão dolorido?
Eu acredito, mas mais no período de pandemia. Veja, por exemplo, que muitas pessoas estão consumindo mais vinho, mais delivery de comida, comprando mais objetos para o lar. O pessoal fica em casa mais horas, resolve comprar uma cadeira nova para trabalhar, um computador novo, um celular novo. Deixa de gastar em algumas coisas e investe nos seus cuidados pessoais. Notamos que o consumo será mais humano. As pessoas têm parentes que ficaram doentes, que faleceram por conta da doença. Então, realmente, o pessoal está tentando se cuidar mais, pensando em se agradar mais, agradar mais aqueles com quem vive. Talvez tenha um "revenge spending" para si, para se presentear. Mas, realmente, os consumidores estão vindo com menos poder aquisitivo.
Temos algumas histórias bacanas que pintaram na pandemia? Como está vendo essa mega aceleração do digital?
O consumidor se viu obrigado a participar dessa transformação digital. Quem não estava acostumado a fazer compras no supermercado pela internet, teve que fazer pela primeira vez. Pessoal está evitando muito as saídas. As vendas por WhatsApp vieram para substituir nosso diálogo na loja. Realmente, essa transformação veio para ficar. Nós vamos ter algumas coisas no futuro próximo. O PIX, do Banco Central, que terá pagamento imediato, substituindo o TED, a transferência bancária. Temos notícias de que o WhatsApp vai ter transferência de valores. Essas coisas vão facilitar muito, porque muitas vezes a compra tranca na forma de pagamento. Existem soluções. Muitas startups que resolvem esse assunto, mas o PIX e o WhatsApp, vão resolver muito bem. A transformação digital veio pra ficar. Nós vamos saber surfar bem. Os lojistas têm que saber aproveitar a situação. E um desafio para as vendas digitais é tornar a venda mais humana, mas o diálogo sempre vai resolver. Os empresários estão prontos para isso.
Para fechar, nos comenta como estão as coisas na Casa Louro e na Muda Muda, suas empresas.
Na Casa Louro, estamos tentando focar em produtos básicos com bastante tecnologia. Vestuário com tecnologia, no vestuário com aparência atlética, mas não de fazer ginástica. Vendíamos sapatos, agora estamos vendendo sapatênis, normalmente do tipo meia, que é super moderno, feitos de tricô. Continuamos trabalhando muito forte com blusões. O Muda Muda está em crescimento. Temos esse site de mudanças, atuamos em todo Brasil. Captamos mais de 5 mil pedidos por mês, já passamos de mais de 110 mil pedidos captados, mais de 1,5 mil transportadores cadastrados no site. Por dia, 400 transportadores entram no aplicativo e nós estamos muito felizes porque o Muda Muda funcionou para essas empresas de mudança, nesse período de pandemia, como uma forma de conseguir serviço. Nós conseguimos manter as transportadoras que atuam e muitas se cadastraram, encontrando no Muda Munda uma forma de encontrar clientes. E muitos transportadores que eram de outras atividades, como eventos, que pararam de ter serviço, vieram pro Muda Muda procurando clientes. Aproveitamos esse período de pandemia para desenvolver outro site, que é de serviço também, tem muita possibilidade de crescimento no Brasil, voltada para o lar.
Colunista Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Colaborou Daniel Giussani (daniel.giussani@zerohora.com.br)
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