
A um dia do primeiro turno, a campanha presidencial de 2026 chega à reta final com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados e com um conjunto de episódios que pouco alterou o quadro de intenções de voto. Aqui vai uma lista dos principais fatos que marcaram essa campanha.
Caso Master
O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, está preso e não é candidato, mas seu nome apareceu em episódios ligados a várias campanhas. Em maio, o Intercept Brasil divulgou áudios e mensagens do celular dele em que Flávio Bolsonaro trata o banqueiro como "irmão" e cobra recursos para o filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. A negociação mencionava R$ 134 milhões. Duas semanas depois, pesquisa Meio/Ideia mostrou queda de 18 pontos de Flávio entre eleitores que se declaram de centro-direita.
Ainda sob a sombra de Vorcaro, descobriu-se que o jato ligado ao banqueiro trouxe Flávio dos Estados Unidos e levou o ministro Alexandre de Moraes de Brasília ao Rio de Janeiro; um contrato de até R$ 427 milhões entre o Master e o escritório de um desembargador associado, por assessores do banqueiro, ao grupo do ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que teria dado votos de acordo com os interesses de Vorcaro. Também teve uma proposta de delação, rejeitada pela PF e pela PGR, que citava o ex-governador da Bahia Rui Costa (PT) e o vazamento de áudios de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, mencionando pagamentos que iriam do filme sobre Jair Bolsonaro, a Ciro Nogueira e a Fábio Faria.
Bolsonaro preso e a campanha em seu nome
Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses pela trama golpista, cumpre prisão domiciliar em Brasília desde março. Em julho, Flávio divulgou em transmissão ao vivo uma carta do pai em que o chamava de porta-voz. Moraes entendeu que o ato driblava a proibição de Bolsonaro usar redes sociais e vetou as visitas do filho até 11 de outubro, uma semana após o primeiro turno.
Na convenção que lançou Flávio, também em julho, o público viu um vídeo de Bolsonaro feito com inteligência artificial, com rosto e voz do ex-presidente. O PT acionou o TSE, alegando deepfake. O Tribunal liberou o vídeo e aproveitou o caso para definir o que será considerado deepfake na eleição.

Houve ainda o desentendimento familiar. Em junho, Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, gravou vídeo dizendo ter sido humilhada e maltratada pelo enteado em uma ligação. Em 23 de julho, Flávio gravou pedido público de desculpas, e Michelle respondeu dizendo ter recebido as palavras "com muita paz". No 7 de Setembro, no maior ato da campanha de Flávio, na Avenida Paulista, ela não compareceu.
Inquéritos sobre "Lulinha"
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de três inquéritos da PF no Supremo, por suspeita de tráfico de influência. No centro da investigação está a empresária Roberta Luchsinger, amiga dele, apontada pela PF como lobista de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", operador do esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados.
Em agosto, o Poder360 revelou que Roberta pagou R$ 249 mil a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe do gabinete pessoal de Lula até julho, quando deixou o Planalto para coordenar a campanha. Marcola afirmou que foi um empréstimo pessoal, já quitado. Dois dias após a reportagem, deixou a campanha.
No Jornal Nacional, Lula foi questionado sobre mensagem no celular da lobista segundo a qual ele teria oferecido um cargo a ela. O presidente chamou a história de imbecilidade, disse que não conhece a mulher e afirmou que o filho não fez nada de errado. A defesa do governo sustenta que a PF não encontrou contrato firmado com a lobista ou com o Careca em órgão federal.
STF no centro da disputa
No início de setembro, as manchetes foram dominadas pelo Supremo. André Mendonça tinha pedido investigação contra Alexandre de Moraes, que reagiu e pediu outra contra o colega no âmbito do inquérito das fake news. Dias depois, Mendonça destituiu o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e deu início a uma guerra de decisões monocráticas. Dino suspendeu decisão de Mendonça sobre a direção da PF e restituiu Rodrigues ao cargo.

O presidente do STF, Edson Fachin, tentou dar um freio de arrumação. Tirou a relatoria do inquérito aberto há 7 anos de Moraes, e puxou para si a relatoria dos dois pedidos de investigação.
Em 15 de setembro, o plenário do Supremo discutiu se as mensagens do celular de Vorcaro justificavam investigar Moraes. A sessão teve troca de acusações entre Moraes e André Mendonça; Gilmar Mendes acusou Mendonça de usar o calendário eleitoral contra a Corte, e Cármen Lúcia falou em "mal-estar cívico". Flávio Dino pediu vista, e a decisão ficou para depois da eleição.
Boato sobre Nossa Senhora Aparecida
A desinformação mais bem-sucedida desta eleição partiu de um projeto de 2007, arquivado em 2008, do então deputado Victório Galli, que propunha trocar "padroeira do Brasil" por "padroeira do povo católico" na lei do feriado de 12 de outubro. Na semana passada, um comentário distorcido na GloboNews virou, nas redes, a afirmação de que Flávio queria retirar de Aparecida o título de padroeira, o que ele nunca disse.
Um funcionário do Planalto repostou mensagem que pedia para deixar a notícia falsa correr. Mendonça mandou remover os posts; Dino derrubou a ordem; Fux a restabeleceu; e ela caiu de novo quando o próprio Mendonça mudou o voto. Questionado na TV, Lula disse não saber se o conteúdo era falso.
Antes do início da campanha, PT e PL já somavam 14 ações no TSE por conteúdo produzido com IA, incluindo vídeos falsos de Flávio contando dinheiro e em gestos de intimidade com Vorcaro. Pela regra deste ano, é proibido publicar conteúdo sintético com voz ou imagem de candidato nas 72 horas anteriores à votação.
Lula e Flávio faltam aos debates
Os dois principais candidatos não participaram de nenhum debate no primeiro turno, o menor número de confrontos na TV desde 1998. Na Band, em agosto, os púlpitos de ambos ficaram vazios. Lula alegou que o formato não oferecia condições equilibradas de resposta a ataques e, no mesmo horário, concedeu entrevista gravada à Record. Flávio disse que não iria porque Lula não iria; Romeu Zema desistiu pelo mesmo motivo.
Em setembro, o debate do pool formado por SBT, CNN e RedeTV foi cancelado porque os dois não confirmaram presença no prazo. A Record também cancelou o seu, afirmando que, sem os dois primeiros colocados, não haveria o confronto de ideias esperado. Pesquisa da Nexus apontou que 86% dos eleitores pretendiam acompanhar os debates.

Há precedentes: Fernando Collor faltou aos seis debates do primeiro turno em 1989, e Lula não foi a nenhum em 2006. Nesta quinta-feira (1º), após o Jornal Nacional, a Globo realiza o último debate antes da votação. Flávio confirmou presença; Lula disse que não vai.
Na quinta-feira (1º), a TV Globo também cancelou o seu, mas após uma série de decisões judiciais que alteraram a dinâmica prevista. Primeiro, Lula decidiu faltar. Uma decisão da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, proibia a exibição do púlpito de Lula vazio e a formulação de perguntas dos candidatos presentes ao Lula ausente. Na sequência, o ministro Gilmar Mendes determinou que o candidato Renan Santos (Missão) participasse do debate. Com a decisão de Gilmar, Flávio também desistiu de participar.
Windbanners nas ruas e na Justiça
Com a legislação restringindo outras formas de propaganda de rua, o windbanner, bandeira alta e estreita presa a uma base, virou símbolo visual da campanha. A lei permite bandeira móvel desde que não atrapalhe pedestres nem veículos. Em Santa Catarina, equipes ocupam os mesmos pontos todas as manhãs, e houve candidato a deputado que teve o equipamento furtado na primeira semana.
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo entendeu que o windbanner se assemelha a um estandarte, e o juiz Luiz Henrique Antico deu 24 horas para a retirada em Aparecida, Roseira e Potim. No Espírito Santo, especialistas lembram que o candidato pode ter de indenizar se a bandeira cair sobre carro ou pessoa.
Em Porto Alegre, a pedido do prefeito Sebastião Melo, o juiz Daniel Henrique Dummer, da 114ª Zona Eleitoral, proibiu os windbanners no percurso dos desfiles de 20 de setembro, por causa dos cavalos. Uma semana depois, diante da previsão de chuva forte, determinou a retirada de todos das ruas da capital de domingo a terça. Um deputado federal apresentou projeto para proibir o equipamento nas próximas eleições.
Bolsa Família e proibição das bets
Em 17 de setembro, Lula assinou decreto que reajusta o Bolsa Família em 15%. O benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691, no primeiro reajuste desde 2023, e o governo afirma que a medida apenas repõe a inflação do período. O custo é de R$ 5,8 bilhões neste ano e cerca de R$ 22 bilhões no próximo. O novo valor começa a ser pago em 19 de outubro, seis dias antes do segundo turno.
Oito dias depois, após comício no Recife, Lula assinou medida provisória que proíbe as bets no país, incluindo o "jogo do tigrinho", e lançou o Desenrola 3.0. Segundo a Atlas, 75% dos brasileiros apoiam a proibição. O setor foi regulamentado pelo próprio governo há menos de três anos.

A oposição reagiu de formas diferentes. Ronaldo Caiado disse que o reajuste escancara o uso eleitoral do programa. Renan Santos falou em compra de votos e acionou o TSE. Flávio chamou o aumento de "merreca" e, no mesmo dia, prometeu mantê-lo se eleito; sobre as bets, qualificou a MP de populista, hipócrita e eleitoreira.
Alternativas não decolaram
Augusto Cury (Avante) foi de 2% para 10% na primeira pesquisa Quaest após o início da propaganda na TV e chegou ao terceiro lugar. Em meados de setembro, na Atlas, havia caído pela metade; no último Datafolha, aparece com 5%.
Renan Santos (Missão) antecipou a convenção para ter proteção da PF, após relatar ameaças de facções criminosas. No lançamento, prometeu matar quem roubar e chamou Flávio de mongoloide, pedindo desculpas pelos insultos no fim do discurso. Teve a candidatura suspensa pelo TSE por falhas no registro, que só foi validado em 9 de setembro.
Caiado (PSD), que deixou o governo de Goiás e tem Gilberto Kassab como vice, tem 4%. Zema (Novo), que queria Joaquim Barbosa como vice e ficou com Eduardo Girão (Novo), faltou ao debate da Band e fez ato próprio na Paulista na manhã do 7 de Setembro; chega à véspera com 1%.
Cédula com menos nomes
O TSE recebeu 13 pedidos de registro para presidente. Pablo Marçal, inelegível até 2032 por causa da eleição paulistana de 2024, tentou concorrer pelo PRTB com filiação retroativa obtida por liminar, embora os registros indicassem que, no prazo legal, ele estava no União Brasil. O TSE proibiu o uso do fundo eleitoral e a participação em debates e, em 11 de setembro, negou o registro por unanimidade.
Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, filiou-se ao Democracia Cristã e desistiu em julho, por falta de dinheiro e estrutura. O partido já havia lançado Aldo Rebelo, cuja filiação foi cancelada pela Justiça Eleitoral. Na terceira tentativa, o DC lançou a advogada mato-grossense Clariana Barão. Os demais candidatos são de partidos pequenos, em sua maioria estreantes na disputa presidencial, e aparecem com 1% ou menos.
Placar quase não se mexeu
No Datafolha de agosto, no início da campanha, Lula tinha 39% e Flávio, 33%. No levantamento de 24 de setembro, 40% a 36% no primeiro turno e 47% a 45% no segundo. Na pesquisa Meio/Ideia desta semana, a diferença no primeiro turno é de 1 ponto, e a rejeição de ambos está empatada em torno de 47%. Os dois somam mais de 70% das intenções de voto.
Após o caso Dark Horse, o Datafolha mostrou que 88% dos eleitores de Flávio queriam que ele seguisse candidato. No campo governista, a base reagiu ao caso Lulinha criticando os vazamentos.



