
O único personagem do caso Master que ainda pode alegar pureza é um arquipélago. Cristóvão Colombo o avistou em 1493 e o batizou em homenagem a Santa Úrsula e às 11 mil virgens martirizadas com ela. A parte que coube aos ingleses virou, séculos depois, um dos endereços preferidos do dinheiro que precisa perder o sobrenome.
Foi para lá que seguiu o dinheiro de um fundo que a Polícia Federal suspeita ter Dias Toffoli como dono de fato. O Arleen, sócio do resort da família do ministro no Paraná, recebeu ao menos R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro. Em 2025, passou a Alberto Leite, empresário amigo de Toffoli que fala em negócio regular, mudou o regulamento para investir fora do país e despachou cerca de R$ 34 milhões para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas. O contrato de venda, Vorcaro mandou redigir "sem nome". Quando Toffoli contrariou o próprio histórico e votou contra usinas num caso de precatórios, filão de mais de R$ 10 bilhões no Master, o banqueiro escreveu "tô tratando aqui". No processo que interessava ao banco, o ministro voltou ao voto pró-usinas. Roberta Rangel, então mulher dele, advogava para Vorcaro.
A Alexandre de Moraes coube à ilha britânica não-virgem: a festança em Londres. Em abril de 2024, Vorcaro pagou R$ 3,3 milhões numa degustação de uísque Macallan, R$ 145 mil por cabeça, no ano em que o Banco Central mandava 9 ofícios ao Master. Pelas mensagens atribuídas a Moraes, ele sugeriu convidados, chamou colegas, aprovou o cronograma e descreveu a Gilmar Mendes um fórum organizado por Conjur, Correio Braziliense e Banco Master.
Mas só o Master pagava, o mesmo Master que tinha com o escritório da mulher de Moraes um contrato de R$ 129 milhões. Em fevereiro, ele achou absurdo a PF investigar ministro sem autorização. Neste mês, pediu investigação contra André Mendonça com base num relatório de inteligência apócrifo e sem valor probatório da mesma PF.
O resto do elenco também não sai imaculado. Paulo Gonet esteve na degustação e pediu a anulação do relatório que também o cita. Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, nunca pediu uma diligência sobre Toffoli, exigiu em 72 horas o relatório sobre Moraes e o tornou público a 33 dias da eleição, horas depois de a piauí revelar que Flávio Bolsonaro mentiu sobre o dinheiro de Vorcaro no filme do pai.
Edson Fachin é quem chega mais perto da virtude. Em fevereiro, só ele e Cármen Lúcia se inclinaram pelo afastamento de Toffoli, numa reunião em que Flávio Dino falou em "STF futebol clube". Nesta semana, o gaúcho de Passo Fundo tirou de Moraes o inquérito das fake news. Guardou, porém, a derrota de fevereiro em segredo por 7 meses.
Na terça, o plenário decide se investiga Moraes, e uma ala pressiona Fachin para que isso aconteça longe das câmeras. As 11 mil virgens de Santa Úrsula, ao menos, morreram em público.

