
O pronunciamento de Lula na véspera do 7 de Setembro durou pouco menos de quatro minutos e girou inteiro em torno de uma palavra. Soberania apareceu colada às terras raras, ao marco legal dos minerais críticos, ao petróleo achado na Foz do Amazonas, à água doce do país. O presidente avisou que o Brasil não será colônia de ninguém, mandou recado a potências estrangeiras sem precisar dizer o nome de Donald Trump, e encerrou.
O que ele escolheu falar não é pouca coisa, e a data ajuda o repertório, mas soberania também é a capacidade de um Estado de manter as próprias instituições operando dentro da lei, e essa parte não entrou na mensagem que Kassio Nunes Marques autorizou como sendo de interesse público.
A omissão não estreou no feriado. No dia 1º, quando André Mendonça retirou o sigilo dos relatórios e a crise se instalou de vez, Lula não teve agenda pública de campanha e não comentou o caso. Recebeu no Planalto, naquela mesma terça, Edson Fachin e Gilmar Mendes. Enquanto Flávio Bolsonaro pedia renúncia, Ronaldo Caiado pedia a saída de Moraes, Romeu Zema pedia prisão e Augusto Cury dizia que a lei não pergunta o cargo de ninguém, o único candidato à Presidência que não disse nada naquele dia foi o que ocupa o cargo.
Silêncio dessa qualidade é cálculo com endereço. Quem processa e julga ministro do Supremo por crime de responsabilidade é o Senado, e o Senado está sendo eleito em quatro semanas. Há 109 requerimentos de impeachment protocolados contra 10 ministros da Corte. Davi Alcolumbre reclamou publicamente do número, disse que aquilo não é normal e não despachou nenhum deles. O requerimento de CPI de Alessandro Vieira para investigar as relações de Moraes e Dias Toffoli com Vorcaro chegou a 53 assinaturas das 81 possíveis e continua sem leitura em plenário, que é a etapa que faria a comissão existir. Alcolumbre espera outubro para saber quem elegeu mais senadores, porque a recondução dele à presidência da Casa, em fevereiro de 2027, depende exatamente dessa conta. O presidente que passou o 7 de Setembro falando de minerais críticos não tem nenhum interesse em atrapalhar a aritmética do homem que segura os pedidos.
O problema é que essa conveniência não desce a cadeia de comando. Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva, as duas candidatas ao Senado apoiadas por Lula, gastaram a semana passada fazendo o oposto do chefe. Tebet disse estar perplexa e indignada, cobrou transparência absoluta e defendeu que o próprio plenário do Supremo autorize a investigação sobre Moraes. Marina cobrou explicações à altura da gravidade dos fatos e foi além, perguntando por que Mendonça manteve sob sigilo o pedaço da investigação que trata dos R$ 61 milhões que Vorcaro pagou ao filme sobre Jair Bolsonaro, negociado com Flávio. Nenhuma das duas tem a opção de fingir que o assunto é secundário, porque estão disputando justamente a cadeira que teria de julgá-lo.
No Rio Grande do Sul, a Federasul perguntou a senadores e candidatos como votariam num eventual afastamento de Moraes e publicou o painel no domingo. Frederico Antunes, Germano Rigotto, Marcel van Hattem, Milton Cardoso, Renato Jaguarão e Ubiratan Sanderson declararam voto favorável. Paulo Paim, Manuela d'Ávila e Paulo Pimenta constavam como quem não havia respondido até a tarde daquele dia, embora tenham se manifestado em suas redes sociais pedindo o avanço das investigações. Cobrar apuração é barato e todos cobram; dizer como votaria já custa alguma coisa, e a fatura chegou dividida no mesmo lugar em que o presidente escolheu não falar.
Do outro lado, a Avenida Paulista tem concentração marcada para as 15h desta segunda sob o mote "Fora Lula, Fora Moraes" e Nikolas Ferreira chamando a data de o dia em que o Brasil vai parar os intocáveis. Flávio Bolsonaro tem todo o direito de cobrar apuração, mas o mesmo senador negociou R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o longa sobre o pai, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos, e escreveu ao banqueiro, dois dias antes da prisão, que estaria com ele sempre, chamando-o de “irmãozão”. Isso não move um voto no eleitorado dele, mas o discurso duro contra o Supremo move a todos.
Sobrou então apenas uma palavra que atravessará o 7 de Setembro sem encostar em ninguém. Soberania não obriga o presidente a explicar por que o Senado que ele ajuda a compor mantém 109 pedidos parados, não obriga o candidato do PL a explicar o dinheiro que pegou com o banqueiro e não obriga Alcolumbre a ler um requerimento que 53 senadores já assinaram. É a única coisa dita em cadeia nacional nesta semana que não vai custar nada a quem disse.





