
Às 23h04min de 15 de janeiro de 2024, um arquivo foi aberto e alterado no Office 365. O perfil responsável pela edição aparece identificado como "Ministro Alexandre de Moraes". O documento era o contrato de honorários entre o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro, e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Uma hora e 40 minutos antes, Vorcaro havia devolvido a minuta pelo WhatsApp avisando que tinha incluído uma cláusula e pedindo que o escritório confirmasse se estava adequada. Os metadados saíram do celular apreendido pela Polícia Federal e foram publicados hoje pelo Estadão.
O escritório confirmou. Sim, ele confirmou. Confirmou que o ministro acessou, confirmou que editou, e ainda ofereceu a explicação: o setor de compliance da banca consultou o marido da sócia-administradora para saber se havia impedimento legal na contratação, e não havia, porque Moraes nunca julgou causa do Master.
Leia de novo devagar, porque essa é a versão da defesa. O setor de compliance de um escritório de advocacia perguntou a um ministro do Supremo Tribunal Federal – e não simplesmente ao marido da sócia-diretora – se ele via problema em a mulher dele receber R$ 3 milhões por mês de um banco. E o ministro respondeu abrindo o arquivo às onze da noite, logo depois de o cliente ter mexido no texto. Os metadados não mostram o que foi alterado, e é perfeitamente possível que a mudança tenha sido uma vírgula, mas a única versão dos fatos que a família apresenta em sua defesa já descreve um ministro da Suprema Corte com o contrato comercial do cliente aberto na tela.
O valor não ajuda a acalmar ninguém. O contrato previa 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos, o que, com os impostos por cima, chega a R$ 3,6 milhões brutos por mês. O Estadão consultou 13 escritórios de elite e mostrou que todo o serviço descrito pela própria banca custaria cerca de R$ 8 milhões. Um prestador que havia feito parte do mesmo trabalho anos antes recebeu R$ 200 mil. Foram 645 vezes menos. O Master comprou o compliance mais caro já registrado no país e quebrou, deixando um dos maiores rombos da história do Fundo Garantidor de Créditos. Alguma coisa naquelas políticas internas não pegou.
Existe uma leitura generosa disponível, e ela é a de que escritório caro é escritório caro, e que ninguém é obrigado a cobrar a média do mercado. Ela para de funcionar quando se olha o restante da série. Desde que Moraes assumiu o Supremo, em 2017, o patrimônio imobiliário do casal subiu 266%, de R$ 8,6 milhões para R$ 31,5 milhões. Nos últimos cinco anos foram R$ 23,4 milhões em imóveis, todos à vista, incluindo uma mansão de 725 metros quadrados no Lago Sul comprada por R$ 12 milhões em pagamento único. O salário do ministro é de R$ 46 mil. E o número de ações de Viviane em tribunais superiores saltou de 27 para 152 depois que o marido passou a integrar um deles.
A outra frente de hoje são as mensagens. Elas começam em 4 de novembro de 2025 e vão apertando conforme a prisão se aproxima. Vorcaro avisa que vai ficar acordado esperando notícia. Pede que o interlocutor consiga "bloquear toda maldade" – o que é muito revelador sobre o conceito de bom e mau dessa gente. Dispara perguntas em série sobre se está seguro, se é o mesmo juiz, se o presidente do Banco Central está sabendo. No sábado, 15 de novembro, pergunta se já precisa estar fora do país na segunda-feira.. Na segunda, às 17h26min, ainda quer saber se houve novidade. O decreto de prisão preventiva já tinha sido assinado às 15h29min. Ele foi preso em Guarulhos naquela noite, tentando embarcar em um jato particular com destino a Malta e depois a Dubai.
Não existe uma única resposta do ministro nesse material, e essa ausência tem método: os dois trocavam conteúdo em visualização única, por print de texto escrito no aplicativo de notas. A perícia recuperou o que Vorcaro mandou e não recuperou o que voltou. Moraes não se manifestou sobre as mensagens. Pode haver uma explicação que ainda não foi dada, e ela seria bem-vinda, porque o que está documentado até agora é um investigado prestes a ser preso perguntando a um ministro da Suprema Corte sobre data de operação policial, sobre a identidade do juiz do caso e sobre a conveniência de deixar o Brasil.
Chegamos, então, à parte que interessa mais do que o escândalo. De acordo com as colunas políticas, André Mendonça, relator do caso Master no STF, avalia levar a Edson Fachin um pedido formal de abertura de investigação contra Moraes. Como o alvo é um ministro, só o plenário pode autorizar. E os votos já estão sendo contados nos corredores antes de existir pedido protocolado: Zanin, Dino e Gilmar Mendes com Moraes; Fachin, Nunes Marques e Fux com Mendonça; Cármen Lúcia como incógnita. Há ainda a dúvida sobre a participação de Dias Toffoli, que também aparece na investigação por conta de negócios que fez com a família de Vorcaro.
Dez pessoas que despacham no mesmo prédio vão decidir por maioria se uma delas pode ser investigada. Esse é o desenho institucional que o Brasil escolheu, e ele funciona razoavelmente bem enquanto ninguém precisar usá-lo. Quando precisa, a pergunta que deveria ser sobre indício vira uma pergunta sobre placar.
A direita que comemora hoje devia conferir o que está comemorando. E a esquerda que passou três anos tratando qualquer questionamento aos poderes de Moraes como ataque à democracia agora precisa explicar por que a mesma democracia sobrevive a tudo, menos a uma auditoria. Poder de exceção vem sendo vendido há anos com a promessa de que seria usado por gente acima de qualquer suspeita, mas evidentemente não é o caso aqui.
A conta fica com cada decisão monocrática que ele assinou, cada perfil derrubado, cada sigilo quebrado, cada prazo esticado, cada penalidade arbitrária, tudo isso agora carregando um desconto que nenhum recurso vai reverter. Foi o próprio ministro quem construiu a tese de que a autoridade do Supremo não se discute. Hoje de manhã, um arquivo do Word discutiu.
E o arquivo tem hora marcada. O Supremo vai precisar dizer o que aconteceu às 23h04min, ou dizer por que decidiu não perguntar.




