
Num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, 29% dos eleitores que se declaram independentes dizem que simplesmente não vão votar. Não estão em dúvida, não estão pensando, não estão esperando o horário eleitoral para decidir. Já decidiram, e decidiram ficar em casa no domingo. O número está na Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (5), na parte da tabulação que raramente vira manchete.
Some a esses 29% os 8% que seguem indecisos e você tem 37% do maior bloco político do país recusando a eleição inteira. No primeiro turno, entre os mesmos independentes, indecisos e voto branco ou nulo somam 38%, mais do que qualquer candidato isolado consegue arrancar desse grupo.
Convém entender de que grupo estamos falando. Perguntados sobre como se classificam, 32% dos brasileiros se dizem independentes. Bolsonaristas assumidos são 12%, um em cada oito. A direita não bolsonarista chega a 21%, quase o dobro. Lulistas, 19%. Esquerda não lulista, 14%. O maior bloco do país não pertence a nenhum dos dois lados, e é exatamente ele que está caminhando para fora da urna.
Vale lembrar que no Brasil o voto é obrigatório. Ficar em casa custa alguma coisa, ainda que muito pouco. Tem multa simbólica, tem justificativa para apresentar, tem a chatice de resolver pendência com a Justiça Eleitoral depois. Quem responde a um pesquisador que não vai votar está dizendo que prefere pagar esse preço a apertar um botão. Isso não é mera preguiça de domingo.
E as duas alternativas explicam bem o tamanho da recusa. Entre os independentes, 62% dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, e 60% dizem o mesmo de Flávio. No conjunto do eleitorado, a rejeição a Lula é de 52% e a de Flávio, 54%. Na pergunta sobre quem dá mais medo, Flávio aparece com 44% e Lula com 41%, dentro da margem, com o índice do presidente subindo desde julho. Durante quase uma década, o medo foi a principal assimetria da política brasileira. Agora está bem distribuído, e quem não pertence a nenhuma das duas torcidas olha para a cédula e não encontra nada além de duas ameaças concorrentes.
Existe uma leitura romântica desse dado, e ela é falsa. A do eleitor que se retira para dar uma lição nos políticos. A lição não chega a ninguém, não sejamos ingênuos. O sujeito que fica em casa vai pagar o mesmo imposto, atravessar o mesmo posto de saúde, receber a mesma inflação de alimento na conta do mercado e conviver com o mesmo Supremo. Ele não sai do país, só sai da conta que os candidatos fazem para decidir com quem falar.
Porque é aí que a coisa produz efeito prático, e o efeito é o contrário do pretendido. Com um terço do centro avisando que não comparece, convencer moderado vira gasto ruim de campanha. Mobilizar a própria torcida vira o único investimento com retorno garantido. A eleição fica mais barata para quem já tem base fiel e mais cara para quem tentaria construir maioria no meio. A retirada do eleitor moderado acaba paradoxalmente financiando a polarização.
Os dois comitês já leem essa planilha. A pesquisa mostra 69% do eleitorado com voto definitivo antes mesmo de a campanha esquentar, contra 56% em março. Entre os eleitores de Lula, 77% dizem que não mudam. Entre os de Flávio, 68%. Numa disputa assim, ninguém precisa ser melhor, precisa apenas garantir que o seu compareça e torcer para que o do outro desanime.
O passado recente dá a dimensão do que está em jogo. Em 2022, no segundo turno, 32,2 milhões de brasileiros não foram votar, quase 3,9 milhões anularam e 1,7 milhão votou em branco. Somando tudo, quase 38 milhões de eleitores não escolheram ninguém, num pleito decidido por 2,1 milhões de votos. O não voto foi 18 vezes maior que a margem que elegeu o presidente da República, e nenhum dos dois lados perdeu um minuto de sono com isso depois da apuração.
Agora a Quaest mostra esse contingente se formando de novo, mais cedo e com mais consciência do que faz. É uma gente que acompanhou o governo, ouviu falar do Desenrola sem ter sido beneficiada, viu o preço da comida subir, assistiu à oposição crescer por acidente enquanto discutia visita a presídio, e concluiu que nada daquilo tem a ver com ela.
Em outubro, essa gente vai aparecer como estatística de abstenção, será citada em nota técnica do TSE e esquecida na segunda-feira.


