
Três dos políticos mais conhecidos do Brasil entregaram nesta semana declarações de bens que pedem explicação, e nenhum dos três deu uma convincente. Nikolas Ferreira multiplicou o patrimônio por 106, Lula perdeu R$ 2,6 milhões em quatro anos de Presidência e Erika Hilton declarou menos do que recebe em meio mês de salário.
Convém dizer logo o que a Justiça Eleitoral faz com esses documentos, que é praticamente nada. Ela apenas os recebe. A lei manda o candidato listar o que tem e não manda comprovar de onde veio, e a declaração de Imposto de Renda, que permitiria o cruzamento, é sigilosa. Nenhum desses números foi conferido por ninguém. A única cobrança possível, portanto, é a política. É perguntar e esperar resposta.
Nikolas Ferreira não declarou bem nenhum quando virou vereador em Belo Horizonte, em 2020. Tinha R$ 36.820 em 2022. Declarou agora R$ 3.898.456. Multiplicar o patrimônio por 106 em quatro anos de mandato é anômalo, e não existe jeito educado de dizer isso. A resposta dele foi um vídeo, sem um contrato, sem uma nota fiscal, sem um valor, pedindo que descontássemos o R$ 1,7 milhão que ainda deve do financiamento da casa. Descontado, sobram R$ 2,17 milhões, ainda 59 vezes o que ele tinha. Mas o pedido em si já diz alguma coisa. Casa financiada é patrimônio adquirido, mora-se nela, valoriza no nome do dono e a dívida se paga com renda futura, então descontar aquilo não é rigor contábil, é conveniência. E ele emendou ironizando a queda patrimonial do adversário, dizendo que quem não administra o próprio dinheiro não administra o país. É uma frase boa para as redes sociais, mas não responde uma linha sobre ele.
Lula declarou R$ 4,7 milhões, contra R$ 7,4 milhões em 2022. Corrigida pela inflação, a queda passa de 45%. O motivo principal está na previdência privada: um único plano VGBL de R$ 5,5 milhões virou dois planos que somam R$ 3,3 milhões. Quarenta por cento a menos, em termos nominais, depois de quatro anos de juro alto no Brasil. Ou o dinheiro foi sacado em algum momento, ou o presidente encontrou a pior aplicação financeira do país. Sumiram também da lista créditos de empréstimo pessoal e uma devolução de valores que estavam bloqueados na Justiça. A campanha, procurada, não explicou para onde foi a diferença.
E o caso que mais rendeu foi o da deputada Erika Hilton, que declarou R$ 15.975,73, quase tudo parado em uma conta corrente da Caixa. Declarar pouco não é crime, o que é difícil de engolir é a resposta. Ela disse que é impossível enriquecer na política sendo honesta, arrimo de família e tendo, palavras dela, bom gosto para se vestir. Perguntaram sobre o patrimônio e ela respondeu com piada sobre o guarda-roupa.
Não é a primeira vez que a deputada responde a uma pergunta difícil apostando na preguiça de quem escuta. Em 24 de maio de 2023, uma quarta-feira, a Câmara aprovou a urgência do projeto do Marco Temporal das terras indígenas. Erika Hilton não estava lá. Pediu ausência justificada e explicou depois que tinha ido a São Paulo, palavras dela outra vez, debater política com pensadores da cultura brasileira, entre arquitetos, músicos e poetas.
O tal debate era a festa de 10 anos da luxuosa grife italiana Bottega Veneta no Brasil, na Casa de Vidro de Lina Bo Bardi. Terceira edição de uma série de ativações de marca que a grife já tinha rodado em Dubai e Tóquio, com programação fechada, apenas para convidados. A deputada postou no Instagram que era uma honra estar na imersão de aniversário da marca e publicou no TikTok um vídeo posando com um terninho da grife. E contou, depois, que orientou a bancada do PSOL a obstruir a urgência em Brasília por telefone, de São Paulo.
Faltar a uma sessão acontece, e a ausência foi formalmente justificada. Chamar ativação de marca de debate com pensadores da cultura brasileira já é outra coisa.
A bolsa Padded Cassette de R$ 24,7 mil que ela postou no ano passado, aliás, não é pecado nenhum. Parlamentar compra o que quiser com o próprio salário. A bolsa serve de recibo, e mostra apenas que a relação com aquela grife não foi acidente de agenda numa tarde de 2023.
Deputado não deve modéstia a ninguém. Deve explicação.




