
Um homem levantou-se e saiu de um estúdio ao vivo no meio de um debate porque um outro homem se recusou a dizer uma frase que o primeiro homem queria ouvir.
Foi na terça-feira (4), no podcast IronTalks. Jeffrey Chiquini, advogado criminalista e pré-candidato a deputado federal pelo Novo, perguntou ao apresentador Felipe Sestaro se Lula é corrupto. Sestaro respondeu que não podia afirmar aquilo sem condenação criminal em vigor. Chiquini insistiu, lembrou o tratamento que Sestaro dá a Flávio Bolsonaro, chamou-o de infiltrado e de militante do Lula, e foi embora antes do fim do programa.
Nada daquilo era sobre informação. Chiquini conhece o histórico do apresentador, sabe o que ele pensa do PT e sabe que a resposta não moveria um voto sequer. O que se cobrava ali era a pronúncia de uma senha, e senha nunca serviu para informar coisa alguma. Serve para separar quem diz certo de quem diz quase certo, no exato instante em que atravessa a passagem. Sestaro entregou um critério onde se esperava uma palavra, e o critério foi ouvido como deserção.
Sestaro passou julho anunciando que usaria o programa para implodir a candidatura de Flávio. Aproximou-se de Michelle Bolsonaro, disputa audiência no mesmo mercado em que disputa política e não é figura neutra em coisa alguma dessa história. Chamá-lo de adversário interno descreveria a briga com exatidão. Chamá-lo de homem do Lula é outra operação. A primeira descreve o que está acontecendo, a segunda decide quem tem direito de continuar na sala.
Durante oito anos, ser contra Lula bastou para pertencer. Foi o que manteve no mesmo palanque o liberal e o pastor, o oficial da reserva e o produtor de soja, sem que nenhum deles precisasse concordar com os outros em qualquer outra coisa. Um cimento barato, feito de um ingrediente só, e por isso mesmo muito resistente. O que aconteceu naquele estúdio é que a fórmula mudou sem aviso. Já não basta ser contra o adversário. É preciso ser a favor da família. Sestaro cumpre a primeira exigência com sobra e foi excomungado por falhar na segunda.
O vício não é de um campo só. Na convenção que oficializou sua candidatura, no domingo (2), falando de violência contra a mulher, Lula disse que o cara teria de escolher entre votar nele e bater na mulher. A arquitetura é a mesma do estúdio. De um lado o voto, do outro o agressor, e o meio da frase evapora. Quem não repete a fórmula tem o caráter presumido em vez de disputado, e presumir sempre saiu mais barato do que convencer.
A Quaest divulgada na quarta-feira (5) pede que o entrevistado se classifique sozinho, e o resultado devia constranger quem anda cobrando senha. Bolsonaristas são 12% do país. A direita que não se diz bolsonarista é quase o dobro disso, e os independentes passam de 30%. Chiquini fala por um oitavo do eleitorado e gastou a terça-feira expulsando gente do bloco de que vai depender em outubro.
Saiu do estúdio convencido de ter expulsado alguém. Saiu sozinho.





