
O primeiro ato oficial de campanha do candidato do Novo à Presidência foi dobrar um avião de papel. Não é figura de linguagem. Romeu Zema publicou no domingo um vídeo em que aparece sentado numa cadeira, monta um aviãozinho, lança, e o objeto atravessa Minas, Bahia, Rio e São Paulo até entrar numa sala em Brasília onde há um personagem com características associadas a Lula. O personagem lê o bilhete, se irrita, amassa o papel. Na tela vem a frase: "Lugar de intocável é na cadeia. Tô chegando… Zema".
O vídeo inteiro foi feito por inteligência artificial, e isso está informado na própria publicação, como manda a resolução do Tribunal Superior Eleitoral. Ou seja: dentro da lei, direitinho, com etiqueta e tudo. O problema nunca foi a legalidade.
Se alguém quiser encontrar unanimidade no primeiro domingo de campanha, encontra duas. A primeira é segurança pública, que apareceu em praticamente todos os palanques que importam – Flávio Bolsonaro em Copacabana, Romeu Zema em Montes Claros, Ronaldo Caiado no Entorno de Brasília, e Lula em São Bernardo prometendo criar um ministério só para o tema. Quatro projetos de país diferentes e um único assunto, o que já diz alguma coisa sobre o tamanho do medo que anda circulando por aí.
A segunda unanimidade é bem menos nobre. Foi a inteligência artificial, usada nas formas mais constrangedoras de que se tem notícia neste país.
Flávio Bolsonaro é, disparado, o campeão do gênero. O senador já foi retratado por IA como piloto de caça combatendo facções criminosas, o que faz dele o primeiro presidenciável brasileiro a fazer campanha em formato de videogame. Publicou um funk em que o pai aparece tocando pandeiro. Publicou outro funk sobre o Pix, atribuindo o sistema ao legado de Jair Bolsonaro – o Pix foi lançado em novembro de 2020, durante aquele governo, mas foi desenvolvido pelo Banco Central, sem participação do então presidente em etapa alguma. Também apresentou na convenção um clipe feito com a tecnologia, e o próprio PL usou IA para divulgar um projeto do senador que aumenta a pena para furto de celular. Existe algo profundamente adequado em anunciar endurecimento penal com imagem gerada por máquina.
Zema, por sua vez, já apareceu num vídeo cantando sobre Minas Gerais em que dirige trator, anda de metrô em Belo Horizonte, salta de paraquedas sobre as montanhas e exibe pão de queijo, terminando com a sugestão de que governar não basta, é preciso também dançar fandango. Publicou um samba-enredo chamado "Cadê Minha Picanha" e chegou a recriar Lula como um boneco. Tudo sintético, tudo produzido em minutos, tudo mais barato que contratar um compositor.
Renan Santos, do Missão, transformou o clipe do jingle oficial numa história em quadrinhos e usou IA numa publicação sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Não há inocentes nessa história. Há apenas graus de constrangimento.
O Observatório IA nas Eleições calculou que a média diária de conteúdo político produzido com inteligência artificial cresceu 50% em relação ao período eleitoral de 2024. Uma pesquisa do laboratório Projeto Brief mostrou que 70% dos entrevistados acreditam que a tecnologia pode influenciar o resultado da eleição, e que menos da metade conseguiu identificar corretamente se um vídeo era ou não sintético. Metade do eleitorado brasileiro está sendo convencida por peças que não sabe distinguir de gravação real.
A regra do TSE, hoje, é clara: conteúdo com IA precisa de aviso explícito e destacado, e deepfake está proibido de forma absoluta, mesmo com autorização do retratado, mesmo se for elogioso. Só que o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, tem sinalizado a intenção de afrouxar a proibição, e a reunião que decidiria isso foi adiada. A eleição, essa não foi adiada. Segue rodando enquanto o tribunal decide qual é a regra.
Talvez esta seja a única promessa realmente cumprida da largada. Prometeram campanha moderna e entregaram exatamente isso: um candidato que canta sem cantar, um que voa sem voar, um que fala estando proibido de falar, e um eleitor que assiste a tudo sem conseguir saber o que aconteceu de verdade.
O avião de papel, pelo menos, era de papel.



