
Cinco minutos. Foi o tempo de fala que Flávio Bolsonaro teve nesta terça (7) diante do escritório comercial do governo americano para pedir que Donald Trump não aplique a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Um senador da República e pré-candidato à Presidência cruzando o hemisfério para argumentar, num órgão estrangeiro, contra uma sanção ao próprio país. Até aí, o episódio seria apenas insólito. O que o torna revelador é o argumento.
Porque o argumento central de Flávio não foi econômico. Não foi o emprego do exportador brasileiro, não foi o preço do café na prateleira americana. Foi eleitoral. No documento de 86 páginas que enviou ao governo dos Estados Unidos antes da viagem, o senador escreve que as tarifas propostas dariam ao governo brasileiro "exatamente a vitória política que ele vem buscando". E cita pesquisas mostrando que Lula se fortaleceu justamente nos períodos de maior pressão tarifária. Na prática, o pedido é este: não taxem o Brasil, porque isso ajuda o meu adversário em ano de eleição.
Vamos dar ao raciocínio o crédito que ele merece, porque ele está correto. O tarifaço do ano passado, tratado no entorno da família – com Eduardo Bolsonaro fazendo as honras em Washington – como instrumento de pressão sobre o Supremo, produziu o efeito exatamente oposto. Não moveu uma vírgula de decisão judicial e entregou a Lula, embrulhada para presente, a bandeira da soberania nacional. O que Flávio levou aos EUA é um balanço de prejuízo com papel timbrado. A família testou a alavanca, a alavanca quebrou na mão do filho mais tresloucado do momento, e agora o filho mais velho atravessa o continente para pedir que desliguem a máquina que o próprio campo ajudou a ligar.
Só que existe uma segunda camada, mais séria do que a ironia sugere. Quando um pré-candidato pede a um governo estrangeiro que calibre sua política comercial pelo calendário eleitoral brasileiro, ele confirma, por escrito, aquilo que o Planalto vem dizendo há um ano: a tarifa nunca foi sobre comércio. É instrumento político operando de fora para dentro. A diferença é que agora os dois lados disputam quem regula melhor o termostato. A soberania, que já foi bandeira, virou logística.
Enquanto Flávio falava em Washington, Alexandre de Moraes assinava em Brasília a decisão que manda a Polícia Federal ouvi-lo em até dez dias. É o inquérito da calúnia contra Lula, aberto depois que o senador publicou, em janeiro, na esteira da captura de Nicolás Maduro, que o presidente seria delatado por tráfico internacional de drogas e armas e lavagem de dinheiro. A PF concluiu em junho que houve crime. E a PGR pediu o depoimento com uma delicadeza processual que merece registro. O Código Penal prevê que, na calúnia, a retratação antes da sentença isenta de pena. O sistema de Justiça está oferecendo ao pré-candidato uma saída honrosa, que consiste em pedir desculpas públicas, pelo mesmo canal da ofensa, ao homem que ele pretende derrotar nas urnas.
E aí mora o dilema que nenhum marqueteiro resolve. Se Flávio se retrata, entrega a Lula um troféu de campanha e à sua própria base uma imagem de rendição. Se não se retrata, corre o risco de largar na disputa como denunciado. Enquanto isso, a decisão americana sobre o tarifaço sai até o dia 15, e o governo brasileiro, que mandou diplomatas assistirem à audiência calados, segue negociando por canais que não passam por nenhum Bolsonaro porque nenhum deles tem o respeito dos americanos como eles acham que tem.
É o tipo de encruzilhada que ninguém armou para Flávio. Foi construída em casa, uma postagem e uma passagem aérea de cada vez.




