
Entre os pecados que os Estados Unidos listaram para justificar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros está uma ferramenta que transfere dinheiro de graça, em segundos, a qualquer hora do dia. O relatório da Seção 301 não escreve "Pix" com raiva, escreve com burocracia. Fala em práticas brasileiras que prejudicam os serviços americanos de pagamento eletrônico. A gente traduz sem dicionário: um sistema público fez em cinco anos o que as bandeiras de cartão passaram décadas cobrando tarifa para não fazer, e isso, aos olhos de Washington, virou concorrência desleal.
O resto da lista segue o mesmo método. O Brasil protege mal a propriedade intelectual, tarifa o etanol americano, desmata, e até o jeito de aplicar as próprias leis anticorrupção entrou no inventário. O documento ainda guarda uma confissão rara em texto oficial. O próprio escritório comercial da Casa Branca escreveu que negociar sem tarifa, ou com tarifa menor, seria "menos eficaz". Ou seja, a tarifa não era o último recurso de uma negociação frustrada, era o destino de qualquer negociação.
Convém admitir, antes que o argumento pareça torcida: o Brasil não é vítima imaculada do livre comércio. A gente tarifa o etanol deles para proteger o nosso, tem problema real com pirataria, cultiva jabuticabas regulatórias que irritariam qualquer parceiro. Uma queixa comercial séria contra o Brasil encontraria material. O detalhe é que existia mesa para isso. Foram cinco reuniões de alto nível desde maio, um grupo de trabalho criado depois da visita de Lula à Casa Branca, uma última rodada ainda na terça-feira. A tarifa veio assim mesmo, com data marcada para valer, dia 22.
Ajuda lembrar de onde o processo vem. A investigação foi aberta em julho de 2025, dentro do pacote em que Trump anunciou o tarifaço de 50% e o justificou, ele mesmo, como resposta à "caça às bruxas" contra Bolsonaro. Aquela sobretaxa caiu em fevereiro, na reaproximação com Lula. O que sobrou reaparece agora com audiência pública, prazo legal e um anexo com cerca de 1.700 códigos de exceção. O rancor fez pós-graduação.
E a lista de exceções é o trecho mais sincero do documento. Café, carne, suco de laranja, petróleo, remédio e avião ficaram de fora, porque encarecê-los apareceria no caixa do supermercado americano. Calçado, aço, etanol, madeira e máquina ficaram dentro, porque competem com fábrica americana. Princípio que abre exceção conforme a conveniência do freguês funciona como qualquer tabela de preços.
No fundo, a doutrina é uma só, e o Pix é o exemplo perfeito dela. Quando uma empresa americana perde mercado, o mercado é que está errado. Perdeu para um sistema público gratuito, é distorção. Perdeu para o sapato do Vale dos Sinos, é dumping. Perdeu para o etanol de cana, é barreira. A hipótese de ter sido simplesmente vencida não consta do formulário.
Ao Brasil restaram a Lei da Reciprocidade e a OMC. A reciprocidade encarece a vida aqui dentro para doer lá fora, e a OMC leva anos para julgar o que a tarifa cobra em dias. Entre o prejuízo imediato e a paciência infinita, o Planalto promete os dois ao mesmo tempo, o que costuma ser o jeito diplomático de não escolher nenhum. Enquanto a escolha não vem, o objeto do crime segue funcionando, milhões de transferências por dia, de graça, em segundos. Nunca dar certo custou tão caro.




