
A rejeição de Flávio Bolsonaro subiu um degrau por mês desde abril. 52, 54, 56 e, agora, 57. Nenhum solavanco, nenhuma queda espetacular. Uma escada rolante, dessas de aeroporto, levando o candidato com suavidade para o lugar de onde ele foi criado para escapar. E o detalhe que deveria tirar o sono do PL está na comparação que a nova pesquisa Genial/Quaest permite fazer. Lula, o presidente que 51% do país diz não merecer mais quatro anos, tem rejeição de 50%. Mas o herdeiro conseguiu a proeza de ser mais rejeitado que o incumbente que a maioria não quer reeleger. Perder um concurso de impopularidade para Lula, em 2026, exige método.
A candidatura de Flávio foi desenhada em laboratório para ser exatamente o contrário disso. A ideia era apresentá-lo ao Brasil como o Bolsonaro palatável. O sonho era o de ter um candidato com o sobrenome, mas sem a inelegibilidade; com a base, mas sem o passivo; com o capital político do pai, mas depurado das crises que o marcaram. Em abril, o produto parecia funcionar, a ponto de ele liderar uma simulação de segundo turno por 42% a 40%. Três meses depois, perde por 45% a 37%, marca 28% no primeiro turno contra 40% do presidente e vê a distância virar a maior de toda a série.
Entre uma fotografia e outra, aconteceu o que a gente acompanhou ao vivo. Michelle Bolsonaro rompeu, gravou vídeos, expôs as alianças do partido e a intimidade da sucessão. A pesquisa mede o estrago com uma crueldade estatística rara. Perguntados de que lado ficam no desentendimento familiar, 42% respondem Michelle e 18% respondem Flávio. Mais da metade do país considera as declarações dela total ou parcialmente verdadeiras.
Só que o dado mais revelador do levantamento inteiro mora no recorte bolsonarista. Entre os eleitores do núcleo duro, 64% dizem que Michelle errou em divulgar os vídeos. Repare no verbo. Errou em divulgar. A veracidade, quase ninguém contesta. A roupa suja podia ficar onde estava, o varal é que ofendeu. É a militância operando como sempre operou, na esquerda e na direita: a informação entra, a identidade decide o que fazer com ela. A base não absolve Flávio por achar Michelle mentirosa. Absolve porque lealdade, nesse circuito, vale mais que verdade.
O partido colhe o que plantou quando confundiu herança com projeto. O PL não construiu um candidato, invocou um herdeiro. Tratou o sobrenome como ativo que rende sem manutenção e dispensou o trabalho de apresentar ao país uma alternativa que existisse por mérito próprio — e não faltavam nomes para isso. A pesquisa mostra o preço do atalho também na consistência do voto. Entre os eleitores de Lula, 77% dizem que a escolha é definitiva. Entre os de Flávio, 62%. Dali para baixo, a direita é uma coleção de votos provisórios: 43% de consolidação para Caiado, 35% para Renan Santos, 30% para Zema. O campo antipetista chega à janela das convenções como um leilão em que ninguém teve coragem de dar o primeiro lance.
Nada disso significa entusiasmo com o governo. A aprovação de Lula cruzou para o positivo pela primeira vez na série, 48% a 47%, dentro da margem de erro, empurrada menos por paixão e mais por uma economia que dói um pouco menos que no ano passado. Metade do país segue achando que ele não merece outro mandato, e esse número não se moveu por gentileza de ninguém. O que a Quaest descreve é uma eleição em que um incumbente vulnerável enfrenta um desafiante que se desidrata sozinho, sem precisar da ajuda do adversário.
Restam três meses e uma janela de convenções para a direita decidir se insiste no atalho ou se procura um candidato. Enquanto isso, Flávio vai aprendendo o que qualquer tabelião explica de graça: inventário não separa patrimônio de dívida. E as dívidas do sobrenome vencem em outubro.

