
A pesquisa Meio/Ideia desta semana tem duas camadas. A de cima virou manchete em todo lugar, Lula com 45%, Flávio Bolsonaro com 40%, empate técnico no limite da margem. A de baixo mora nas tabelas que quase ninguém abre. E o que está lá é um retrato do Brasil bem mais estranho do que o placar sugere.
Começa pelo número que se repete. Lula marca exatos 45% contra qualquer adversário testado. Contra Flávio, 45%. Contra Michelle, 45%. Contra Caiado, Zema, Renan Santos, Joaquim Barbosa, sempre 45%. Candidato que não oscila conforme o rival é candidato que já não disputa contra ninguém em particular, ele disputa contra a própria biografia. Com 51% do eleitorado dizendo que ele não merece um quarto mandato, o presidente bateu no teto, e teto não muda de lugar quando o outro lado troca de nome.
Depois vem a inversão que rasga o manual de ciência política. O eleitor mais bolsonarista do Brasil é o mais jovem. Entre 16 e 24 anos, Flávio vence por 45,7% a 33,3%. Lula domina justamente as faixas mais velhas, com 12 pontos de folga entre quem tem de 45 a 59 anos. A regra clássica mandava a juventude para a esquerda e entregava a idade ao conservadorismo. Aqui inverteu, e faz todo o sentido. O eleitor de 18 anos tinha dois quando Lula deixou o Planalto pela primeira vez. Ele não viveu o país que subia de classe, não lembra do boom das commodities. Conhece o presidente que foi preso, o presidente do supermercado caro e a direita que mora no celular dele. O lulismo segue forte onde existe memória do lulismo. Onde não existe memória, disputa em desvantagem.
O bolso conta a mesma história por outro ângulo. Lula só vence com folga na faixa de renda até um salário mínimo, onde faz 58,8%. Entre um e três salários, o Brasil do contracheque, perde para Flávio por cinco pontos. E perde também no topo, acima de cinco salários. A coalizão que elegeu o PT três vezes juntava o trabalhador formal e o beneficiário de programa social, agora sobrou a metade de baixo.
O achado mais curioso envolve Michelle Bolsonaro. A pesquisa mediu o efeito do vídeo em que ela expôs o enteado. Entre quem soube do episódio, 64% acreditam que as declarações dela eram verdadeiras. Apenas 0,3% acham que eram totalmente falsas. O país acreditou na Michelle. E quem caiu foi a Michelle, quatro pontos a menos no segundo turno contra Lula desde maio, enquanto Flávio, o alvo da denúncia, oscilou dentro da margem. O eleitor deu razão a ela e mandou a conta… para ela. A velha maldição do mensageiro, agora com registro no TSE. Só que a ex-primeira-dama segue dona do ativo mais raro do tabuleiro, uma rejeição de 28%, contra 43,4% de Flávio e 46,4% de Lula, que carrega a maior do país. É por essa planilha que Valdemar Costa Neto trabalha para reaproximar os dois antes da convenção do PL. O partido acreditou no vídeo tanto quanto o eleitorado. A diferença é que partido não tem o luxo de guardar mágoa.
Tem ainda o caso do Banco Master, que já alcançou o senador Jaques Wagner, do PT, e o próprio Flávio. Perguntado sobre quem está mais envolvido no escândalo, o eleitor empatou a suspeita, 39% apontam Lula, 37,4% apontam Flávio. Acabar com a corrupção é a prioridade número um que o eleitorado cobra do próximo presidente, ao mesmo tempo em que é o único tema que não move um voto nesta eleição. Quando os dois lados frequentam o mesmo escândalo, a suspeita deixa de ser argumento e vira paisagem.
O dado que amarra tudo fica quase escondido no fim do relatório. 64% dizem que o voto já está decidido, o maior patamar do ano. Na pergunta espontânea, sem lista de nomes, o "não sei" também bateu recorde, 33,1%. Mais gente decidida e mais gente sem candidato na cabeça, ao mesmo tempo. A explicação é que o brasileiro decidiu o lado antes de decidir o nome e isso já define a campanha que vem aí. Ninguém vai gastar fortunas tentando convencer, porque quase não sobrou gente para ser convencida. A disputa será para levar a própria torcida até a urna e para desanimar a torcida alheia. O Brasil já escolheu a trincheira, falta escolher o soldado. E a guerra de 2026 vai ser, essencialmente, para manter cada exército acordado até outubro.




