
Eu era apaixonado pelos filmes de Woody Allen, mas ele foi acusado de abusar da filha adotiva, acusação que duas investigações não sustentaram, e me aconselharam a não gostar mais dos filmes. Eu era fã de House of Cards, mas Kevin Spacey foi acusado de abuso sexual, absolvido em todos os julgamentos, e me aconselharam a não gostar da série. Cresci com Harry Potter, mas acusam J.K. Rowling de transfobia, então me aconselharam a devolver a infância. Nesta Copa, tentei torcer por Cabo Verde, estreante simpático, mas o capitão da seleção é investigado por uma denúncia de estupro na Nova Zelândia, e me aconselharam a procurar outro time.
Agora me avisam que não posso torcer pela Argentina na final de domingo, porque a torcida argentina é racista. Material existe. A música contra os jogadores franceses em 2022, o vídeo de Enzo Fernández repetindo o repertório em 2024, os gestos de macaco contra um streamer americano nesta Copa, sob investigação da FIFA. O diagnóstico é verdadeiro, o que me intriga é a pinça com que ele é aplicado.
Seguindo a mesma régua, a Espanha também está interditada, porque o ex-presidente da federação espanhola foi condenado por agressão sexual depois de beijar à força uma campeã do mundo diante das câmeras do planeta – isso sem contar o histórico racista contra Vini Jr.. A Inglaterra caiu na semifinal carregando a lembrança da própria torcida despejando injúrias raciais sobre os três jogadores negros que perderam pênaltis na decisão da Eurocopa. O Uruguai tem um centroavante histórico punido por injúria racial contra um adversário. O México coleciona multas da FIFA pelo grito homofóbico da arquibancada. A Argélia mantém homossexualidade no Código Penal. A França viu o presidente da própria federação cair em meio a acusações de assédio.
Aplicada com honestidade, a régua não deixa ninguém de pé.
A humanidade não passa no teste que a patrulha aplica aos outros. Se cada obra exige um autor imaculado e cada seleção exige uma torcida sem um único racista, o cinema vira auditoria, a estante vira inventário e o futebol vira tribunal com bandeirinha. Condenar o racismo e a violência é obrigação de todos, e este espaço já o fez sem cerimônia. Transformar a condenação em alvará de torcida, decidindo por decreto quem pode vibrar com o quê, é outra atividade. A régua moral da correção só mede o que está do outro lado da rua, nunca o próprio quintal, o próprio clube, o próprio partido.
Ainda bem que todos esses conselhos partem de pessoas impolutas. Gente sem passado, sem processo, sem arquivo, sem ex, de moral tão ilibada que ainda sobra expediente para fiscalizar a minha. Domingo, na dúvida, torço pela bola. Sem gordofobia.

