
O noticiário desta quarta produziu um diálogo interessante. De um lado, a pesquisa Meio/Ideia mostrando Lula com 45% e Flávio Bolsonaro com 40% num eventual segundo turno, empate técnico com margem de 2,5 pontos e fotografia quase idêntica à de maio. De outro, Aécio Neves anunciando em entrevista ao Estadão que o PSDB não terá candidato à Presidência e que existe, palavras dele, "vida inteligente entre os extremos". A pesquisa respondeu antes da pergunta: essa vida inteligente tem 2% das intenções de voto.
O retrato do eleitorado é de um país que já escolheu e agora só espera outubro chegar. Do total de entrevistados, 64% dizem ter o voto definido. Lula segue como o político mais rejeitado do Brasil, com 46,4%, e Flávio viu a própria rejeição subir de 39,8% para 43,4% em dois meses. Mesmo assim, a distância entre eles não sai dos cinco pontos. A eleição parou, e parou dividida.
O que se move, quando alguma coisa se move, é o recorte. Entre os homens, o senador vence com sete pontos de folga. Entre as mulheres, o presidente abre dezesseis. A CEO do instituto, Cila Schulman, resumiu sem rodeios que, se a eleição fosse hoje, o voto feminino reelegeria Lula. Ou seja, enquanto os palanques discutem quem herda o quê e quem trai quem, a disputa real acontece num terreno que nenhum dos dois campos domina por inteiro.
E o centro, que teoricamente existiria para disputar esse terreno? Pediu dispensa. O PSDB de Aécio, dezoito deputados contra os quase cem de outros tempos, não lança candidato, tende a liberar os seus no segundo turno e marcou para o dia seguinte à apuração o início da construção de 2030. No mesmo pacote, o presidente tucano condiciona o apoio à reeleição de Tarcísio em São Paulo a uma "manifestação de interesse" do governador. Quem tem 2% cobra reverência de quem lidera as pesquisas. A política brasileira ainda produz essas cenas de época.
O trecho mais grave da entrevista, porém, passou quase despercebido. Aécio afirma ver um esforço conjunto, de gente do governo e da direita, para manter o caso Master adormecido até depois das urnas, e calcula que uma delação de Daniel Vorcaro salvaria muito pouca gente. Um dirigente partidário descreve, em bom português, os dois polos cooperando para administrar um escândalo, e a acusação atravessa o dia sem produzir uma nota de repúdio sequer de qualquer um dos supostamente envolvidos. A calmaria diante de uma frase dessas diz mais sobre o sistema do que a própria frase.
As duas notícias, lidas juntas, contam a mesma história por ângulos opostos. A pesquisa mostra um país lacrado nas suas metades, decidido meses antes da urna, disputado voto a voto no eleitorado feminino. A entrevista mostra que o centro brasileiro cultiva um talento raro, o de chegar sempre na eleição seguinte. E a eleição seguinte, por definição, nunca chega.


