
Farelo é o que sobra do pão depois que outra pessoa comeu o pão. Foi essa a palavra – “farelo” – que Flávio Bolsonaro escolheu, em novembro de 2011, para batizar o Renda Melhor, programa de transferência de renda do governo do Rio de Janeiro. Ele foi o único voto contra na Alerj, num placar de 54 a 1, e explicou na internet que rejeitava a proposta pelo "caráter clientelista eleitoral". Ainda tentou emplacar uma emenda limitando a dois anos o tempo máximo em que um pobre poderia receber o benefício. Não passou. Em 2013, voltou ao assunto para dizer que o PT "perpetua a pobreza com o bolsa-farelo", mantendo as pessoas dependentes para não perder voto.
Guarde a palavra. Ela vai voltar.
Na semana passada, o mesmo senador apareceu numa transmissão ao vivo ao lado de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, para lançar o plano Brasil por Elas. Tem voucher de creche, microcrédito, aluguel social, uma assistente de inteligência artificial batizada de MarIA e, no lugar de honra da vitrine, internet e celular de graça. Palavras dele: "Garantir o acesso a 70 milhões de mulheres nos celulares. Inclusive a gente tá discutindo aqui na pré-campanha o fornecimento do próprio aparelho". Dias antes, no podcast Flow, já havia anunciado a manutenção do Bolsa Família com cashback: quem recebe R$ 600 e gasta só R$ 500 ganha mais R$ 100 do governo, a título de educação financeira.
Vale reler essa última frase devagar. O Estado transfere dinheiro para uma família pobre e, se a família pobre economizar, transfere mais dinheiro. Foi preciso um estrangeirismo de aplicativo de banco para embrulhar aquilo que, dito em português claro, o próprio senador passou uma década chamando de esmola.
A conta ninguém fez na live. São 28,7 milhões de mulheres cadastradas no Bolsa Família, segundo o Senarc. Um aparelho básico de R$ 700 para cada uma dá R$ 20,1 bilhões, internet à parte. Flávio citou as operadoras como possíveis parceiras e parou por ali, sem dizer se elas doam, se ganham isenção fiscal ou se o pagador de imposto cobre a diferença. A mentora do pacote é a mesma economista que foi principal assessora de Paulo Guedes no Ministério da Economia e que construiu a carreira defendendo menos Estado e controle de gasto. Em 2021, quando o Auxílio Brasil rondava os R$ 400, o pai do pré-candidato explicava que não dava para pagar mais "para a inflação não explodir". O teto que não cabia em duzentos reais de reajuste agora comporta vinte bilhões em smartphone.
Antes que a militância levante da cadeira: mudar de posição não é defeito, é o contrário disso. Quem chega ao poder sem nunca ter revisado uma ideia diante de fato novo não é firme, é surdo. Se Flávio olhou para trás, viu que o programa arrancou gente da miséria e concluiu que estava errado em 2011, essa é a única coisa adulta a fazer.
Só que não foi isso que ele disse. Procurado sobre as próprias publicações, o senador negou que tenha mudado de posição. Mandou nota afirmando que o Bolsa Família é um direito conquistado pelo povo brasileiro e lembrando que o governo do pai triplicou o valor pago. A conversão aconteceu, mas o convertido jura que sempre foi da igreja. É essa parte que constrange, não a outra. Uma década inteira de deboche com quem vive de “farelo” evaporou sem uma linha de retratação, e no lugar do erro reconhecido ficou a reescrita silenciosa da própria biografia, dessas que contam com a memória curta do eleitor.
A esquerda tem pouco a comemorar, porque o mecanismo que a favorece é o mesmo. O PT passou vinte anos tratando o Bolsa Família como patrimônio de família, reajustando em véspera de urna e brigando pela chave do cadastro sempre que o Centrão chegava perto do ministério. A direita gritava clientelismo enquanto estava do lado de fora e redescobriu a política pública no minuto exato em que precisou reverter a rejeição entre as mulheres – coisa que ninguém na transmissão fez questão de esconder, aliás, porque o plano nasceu com esse nome e essa finalidade.
Chegaram ao mesmo lugar por caminhos opostos.





