
O ministro Gilmar Mendes tinha um sonho de infância: ser presidente do Santos. Menino de Diamantino, no interior do Mato Grosso, atravessava quase 200 quilômetros de caminhão para ver o Peixe jogar em Cuiabá. A reportagem de Thais Bilenky, no UOL, conta que o sonho, tecnicamente, não se realizou. Na prática, foi superado.
Depois da eliminação do Brasil na Copa, Gilmar brincou entre amigos que iria reclamar com o Francisco. A piada é boa, o problema é que ela é literal. Francisco Schertel Mendes, 41 anos, filho do ministro, é hoje o cartola mais poderoso do futebol brasileiro. O cargo oficial dele é de uma modéstia estudada: vice-presidente da Federação Matogrossense de Futebol, um estado que, com todo o respeito, não tem rigorosamente nenhuma tradição futebolística. Mas é com esse crachá que Francisco vota na assembleia da CBF, ocupa a única vaga brasileira no comitê disciplinar da Fifa e comanda a chamada turma de Brasília, o grupo que hoje preenche a vice-presidência, a diretoria jurídica e os postos-chave da confederação.
E tem o contrato. Quando não está ocupado decidindo os rumos do futebol mato-grossense, Francisco dirige o IDP, a faculdade fundada pelo pai, e figura como "patrono" da CBF Academy, o braço de ensino da confederação. Segundo o documento revelado pela reportagem, 84% do faturamento bruto da Academy fica com a faculdade da família. A CBF fica com apenas 16% e com o orgulho de ter formado o próprio presidente, Samir Xaud, egresso da Academy.
Como se chegou a esse paraíso? Com uma ajudinha do destino, que no Brasil costuma usar toga. Em 2024, uma liminar de Gilmar segurou Ednaldo Rodrigues na presidência da CBF. Em 2025, Ednaldo cometeu a imprudência de excluir da sua chapa Fernando Sarney, filho de José Sarney, um amigo de longa data do ministro. Gilmar então remeteu o processo ao Tribunal de Justiça do Rio, que já havia decidido contra Ednaldo antes. Uma semana depois, Ednaldo estava fora. Veio a eleição, veio Xaud, e a cadeira sobrou exatamente para o filho dele numa dessas coincidências a la Brasília. O ministro garante que decidiu por convicção jurídica e que nem acompanhou o desfecho. Resta à gente admirar a coreografia: a Justiça girou, o presidente caiu e a música parou com os Mendes sentados em todas as cadeiras.
Nas redes, enquanto isso, o ministro viveu a Copa com lirismo. Agradeceu nominalmente os 26 convocados, homenageou Neymar e reservou seu texto mais emocionado à despedida de Portugal, exaltando a geração vencedora e a fraternidade lusófona. Ninguém estranhou tanto carinho porque Portugal é quase uma extensão do gabinete de Gilmar: é em Lisboa que o IDP promove anualmente o “Gilmarpalooza”, aquele festival em que meia República atravessa o Atlântico para debater integridade pública brasileira com vista para o Tejo. Entre os títulos da Eurocopa e da Liga das Nações, convenhamos, nada em Portugal tem a regularidade dessa escalação.
O incômodo aqui não depende de intenção, e sim de desenho: um ministro da Suprema Corte cuja família tem contrato, receita e projeto de poder dentro de uma entidade cujo destino passou pela caneta dele. Dirigentes de federações admitem à reportagem, sempre sob reserva, que a presença do filho do ministro intimida. Poder que intimida sem ocupar cargo é a pior espécie de poder porque não tem mandato para vencer, não tem urna para derrotar e não tem estatuto para responsabilizar. Em qualquer tribunal do mundo, aparência de parcialidade já é problema suficiente. O resto é luxo argumentativo.
O menino de Diamantino atravessava 200 quilômetros de caminhão para chegar ao futebol. Hoje é o futebol brasileiro que atravessa o país inteiro para chegar à família dele. E todo mundo, ao que tudo indica, acha normal. Tá bom, então.




