
Mil moedas de plástico escondidas por uma mansão dentro de lixeiras, no vaso sanitário e no fundo do lago artificial que habita a casa de todo cafona com dinheiro. Onze empregados, entre babás, cozinheira e motorista, com dez minutos no relógio para caçá-las diante das câmeras. Esta cena não saiu de nenhum roteiro de distopia. Saiu do reality show que o casal de influenciadores Viih Tube e Eliezer lançou esta semana, estrelado pelos próprios funcionários. O nome dispensa análise: "As Patroas".
Entre os prêmios que o público podia escolher para a vencedora do "desafio CLT" – o nome, de novo, faz o trabalho da crítica sozinho – estavam uma massagem, um jantar ou entrar uma hora mais tarde no trabalho. O descanso, que a Constituição classifica como direito, ali virou regalia a ser suada em uma gincana semi-escravocrata.
E a participação era obrigatória, quem faltasse à gravação estava “eliminado”. Depois da revolta nas redes, os vídeos caíram, o Ministério Público do Trabalho abriu procedimento e o TST publicou nota lembrando o óbvio: humilhação não é entretenimento.
Na mesma semana, a diretora jurídica da Fiesp, Luciana Nunes Freire, foi à tribuna do Senado atacar a PEC que acaba com a escala 6x1. O argumento é que ela trabalha cinco dias por dois de descanso e, aos sábados, precisa do salão de cabeleireiro aberto. "Vai estar tudo fechado para mim? É certo isso?". A PEC não fecha salão, farmácia nem supermercado. Ela reduz a jornada de 44 para 40 horas, garante dois dias de folga por semana e organiza revezamentos. Mas o erro técnico importa menos que a sinceridade. A diretora defendeu, sem perceber, que o descanso de milhões siga inexistindo para que o dela funcione.
As duas cenas não se parecem por acaso. Nas duas, o tempo de quem trabalha é tratado como propriedade de quem é servido, algo que se nega na tribuna ou se sorteia na gincana, mas que nunca aparece como aquilo que é: um direito, algo que não deveria depender de sorte, de audiência, de humor patronal. E nas duas cenas ninguém se enxergou vilão. A diretora certamente preparou o discurso com antecedência. O casal editou e publicou os vídeos com orgulho. Todos se acharam razoáveis, simpáticos e modernos. A crueldade consciente ao menos se esconde, mas a inconsciente dá entrevista.
A influenciadora, ao comentar o programete, resumiu o espírito da semana melhor do que qualquer analista: "vai atrapalhar o trabalho? Vai. Mas nem tudo é trabalho". É verdade. Nem tudo é. O descanso, por exemplo, não deveria ser um prêmio e o Senado, que mantém a PEC parada há mais de um mês na mesa de seu presidente, segue sem pressa de decidir o assunto.
No fundo do lago de mentira da mansão de verdade, ficaram as moedas que ninguém achou. De plástico, como convém. Para o tempo dos outros, certa elite brasileira sempre pagou com dinheiro de brinquedo.



