
Certos erros nascem da maldade, outros nascem do cálculo. E tem uma terceira espécie, mais rara e quase pura: o erro que não serve a ninguém, nem sequer a quem o comete. O que o senador Flávio Bolsonaro fez nesta terça (21) pertence a essa terceira família. Não foi malandragem que deu errado nem cinismo que passou do ponto. Foi uma demonstração, ao vivo e diante de diplomatas de quase cinquenta países, de que ainda existe quem esteja disposto a pagar caríssimo por rigorosamente nada.
O senador é pré-candidato à Presidência. Sentou-se num encontro reservado com representantes estrangeiros, desses pensados para mostrar o país ao mundo, e usou o tempo de fala para insinuar que as urnas eletrônicas brasileiras teriam a mesma origem das máquinas venezuelanas da Smartmatic, amparado num suposto relatório da CIA. O detalhe cansativo é que o Tribunal Superior Eleitoral já desmentiu isso não uma, mas várias vezes, com a nota mais recente atualizada neste mês. A Smartmatic não fornece urna nem software ao Brasil, perdeu a única licitação de que participou e o sistema é concebido e operado pela Justiça Eleitoral, do primeiro código ao último lacre. Repetir uma tese já derrubada não é ousadia, é teimosia contra a realidade, que costuma ser a burrice de boas maneiras.
Mas o que tira o episódio da prateleira da balela comum e o promove a obra-prima da estultice é o endereço. Porque atacar a urna diante de embaixadores, sem prova, não é uma ideia qualquer que passou pela cabeça do senador numa tarde ociosa. É a ideia específica que tornou o próprio pai inelegível. Em julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para semear exatamente essa desconfiança, e o TSE o condenou por abuso de poder político, tirando-o das urnas até 2030. O precedente está escrito, a sentença está publicada, a conta está impressa e a prova viva está presa, em casa, afastada da disputa que gostaria de vencer.
Jair, ao menos, podia alegar ineditismo: foi o primeiro a encostar no fio e a descobrir, no susto, que ele estava desencapado. Flávio não tem essa desculpa. Tinha a jurisprudência, tinha a condenação do pai pendurada na parede da família, tinha a data e o valor da multa, e mesmo assim resolveu encostar no mesmo fio com o agravante de citar, ele próprio, a inelegibilidade paterna enquanto o fazia. É o herdeiro que recebeu o inventário inteiro: o sobrenome, o eleitorado e a receita detalhada da própria ruína, com o modo de preparo grifado em amarelo. Herdou tudo, menos o susto.
E aí veio a nota. Diante da repercussão, a campanha divulgou um comunicado para esclarecer que o senador não estava questionando o sistema eleitoral, apenas relatando o que causou a inelegibilidade do pai e o tal relatório da CIA. Convém ler de novo, devagar: a defesa oficial é que ele se limitou a mencionar aquilo que tornou o pai inelegível. É um bilhete que se defende de uma acusação confessando-a. E veio assinado inclusive pela coordenação jurídica da campanha, o que significa que passou por advogado, foi lido, revisado e aprovado e ninguém – ninguém! – na sala reparou que estava protocolando por escrito a própria encrenca.
Dirão que é apenas marketing para a militância, que teoria da conspiração sobre urna é combustível barato e rende engajamento. Renderia, talvez, num grupo de WhatsApp. Só que o senador escolheu fazer o discurso justamente para os observadores internacionais que ele, no mesmo fôlego, pediu que viessem em maior número fiscalizar a eleição. Convidou o juiz, sentou na cadeira dos réus e leu a própria denúncia em voz alta, tudo na mesma tarde. Como cinismo, é incompetente. Como estratégia, é autossabotagem. Reuniu num só gesto a inconsequência do pai e nenhuma das qualidades que davam ao pai algum tamanho.
Os ministros do Supremo que comentaram o caso chamaram a fala de grave e absurda; Gilmar Mendes classificou o uso de relatório estrangeiro para lançar suspeita sobre a urna como interferência indevida. E vale repetir o óbvio que a insistência tenta soterrar: a urna eletrônica é usada desde 1996 sem um único caso comprovado de fraude. Não há enigma a decifrar. Há um sistema que funciona e um pré-candidato que precisa fingir que não, porque a desconfiança virou o último patrimônio político disponível na família.
Flávio começou a semana à procura de um vice que ninguém quer ser, em crise com Michelle, com a campanha rangendo. E neste cenário, resolveu entregar, de graça, o argumento de que o problema talvez não esteja na estrutura da candidatura, e sim no juízo de quem a conduz. O pai levou anos erguendo um movimento para só então derrubá-lo numa reunião com embaixadores. O filho encontrou o atalho: dispensou o movimento e foi direto à reunião. Aí fica fácil demais para Lula.



