
Na semana passada, fui dar um banho na minha filha, Laila, que tem um mês e meio de vida. Não sei exatamente qual foi o movimento que fiz, mas em algum momento do nosso ritual noturno de relaxamento, minha filha anunciou num choro retumbante que eu havia a machucado. Foi uma das experiências mais desoladoras da minha vida e só não chorei como ela porque alguém precisava continuar sendo o adulto naquele momento. Foi neste banho que a frase “doeu mais em mim do que em você” ganhou outra conotação.
Por isso não entra na minha cabeça, de forma alguma, como casos como os de Viamão e Francisco Beltrão são reais. A crueldade prescinde da humanidade imprescindível para que a paternidade seja exercida em sua plenitude.
Uma criança pequena é uma vida inteira em construção, num projeto movido à confiança. Não sabe atravessar a rua, não sabe falar direito, não sabe se defender. O que ela sabe fazer com perfeição é procurar o adulto quando o mundo assusta. O choro existe para isso. É o primeiro idioma da nossa espécie, desenhado para acionar quem protege. Em Francisco Beltrão, uma menina de três anos foi chutada no rosto porque chorava. Em Viamão, um menino da mesma idade foi espancado até a morte porque não respondeu a um bom dia. As duas crianças foram punidas por falar a única língua que dominavam.
Procuro entender e desisto. A palavra “demônio” é confortável porque nos separa deles, mas homens assim não vêm de outra dimensão. Atravessam creches, cultos e calçadas, cumprimentam vizinhos, carregam sacolas de mercado, são até missionários religiosos, eventualmente. O mal que insistimos em chamar de inexplicável costuma ser apenas rotineiro, tolerado em doses pequenas até a dose que mata.
Toda criança corre para dentro de casa quando algo dói lá fora. É o movimento mais instintivo da infância, anterior a qualquer aprendizado. O horror desses casos mora nessa inversão. A dor vinha exatamente do lugar para onde se corre. Não havia refúgio, porque o refúgio era a ameaça. E em Viamão a tragédia tem um andar a mais: perto daquela porta havia adultos pagos para vigiar o risco, que estiveram lá sete vezes e escolheram esperar. O poder público agora admite a falha, e essa admissão precisa custar mais do que uma sindicância.
Ontem repeti o ritual com a Laila. Ela reclamou da água, do sabonete, da vida. Chorou como choram todos os bebês do mundo, avisando ao seu adulto que algo não ia bem. Enrolei minha filha na toalha e ela aquietou no meu ombro, suspirando com a confiança de quem nunca foi traída. Entendi ali o tamanho do contrato que assinei na paternidade dela: fazer o seu choro funcionar para sempre.
Ela chorou e foi atendida. Essa cena banal se repetiu à noite em milhões de casas. Era tudo o que o Oliver pedia.




