
O Brasil saiu da Copa no domingo do jeito mais convencional possível: dois gols de Haaland, um pênalti perdido e nenhum telefonema. Convém sublinhar o detalhe, porque no mesmo domingo a Fifa provou que telefonema resolve.
Folarin Balogun, artilheiro dos Estados Unidos no Mundial, foi expulso, na quarta-feira (30), contra a Bósnia, por um pisão no tornozelo de um adversário. Cartão revisado no VAR e confirmado pelo árbitro, o brasileiro Raphael Claus. Suspensão automática, até aí, sem mistério.
Acontece que no mesmo dia, segundo o New York Times, Donald Trump ligou para Gianni Infantino pedindo a anulação do castigo. A Casa Branca confirmou a ligação, sem detalhar o teor. Quatro dias depois, o Comitê Disciplinar da Fifa anunciou que a suspensão fica congelada por um período probatório de um ano, com base num artigo do código que permite suspender a execução de punições. Na prática, Balogun joga hoje à noite contra a Bélgica, em Seattle. É a primeira vez desde 1962 que a entidade reverte uma suspensão por expulsão no meio de uma Copa. O técnico belga, Rudi Garcia, resumiu o espanto perguntando se nos escritórios da Fifa o 5 de julho virou 1º de abril.
Quem acompanha Trump reconhece o método. Em 2020, promotores federais recomendaram de sete a nove anos de prisão para Roger Stone, lobista e aliado histórico do presidente. Trump tuitou que aquilo era uma injustiça. Horas depois, o Departamento de Justiça atropelou os próprios promotores e pediu pena menor. Os quatro abandonaram o caso em protesto. Em 2021, Trump ligou para o secretário de Estado da Geórgia e pediu que ele encontrasse os 11.780 votos que faltavam para virar a eleição no estado. Brad Raffensperger gravou a ligação e recusou.
Infantino, no domingo, atendeu. A distância entre instituição e balcão cabe inteira nesse contraste. A instituição grava e recusa, mas o balcão agradece a preferência.
O método tem parentesco conhecido com o que há de pior na geopolítica. Erdogan demitiu três presidentes do Banco Central turco em menos de dois anos até achar um disposto a cortar juros contra todo o consenso técnico, e a lira turca, claro, derreteu junto.
Mas o esporte guarda os precedentes ainda mais constrangedores. A Itália de Mussolini sediou e venceu a Copa de 1934 sob suspeitas nunca dissipadas de que o árbitro sueco Ivan Eklind teria se encontrado com o líder fascista antes de apitar a semifinal e a final. A ditadura argentina repetiu o roteiro em 1978, no 6 a 0 sobre o Peru que garantiu a vaga dos anfitriões e segue até hoje cercado de suspeita de acerto entre os dois governos. Em Sochi, em 2014, o Estado russo trocava as amostras de urina dos próprios atletas nos Jogos que sediava. A dinâmica é sempre a mesma: o anfitrião autoritário usa a máquina do Estado para garantir que a regra não se aplique aos seus.
O curioso é que nem a Alemanha nazista, que transformou a Olimpíada de Berlim em vitrine de propaganda, foi tão longe nesse quesito. Jesse Owens humilhou o regime ganhando quatro ouros em 1936, e o resultado ficou de pé. Hitler não cumprimentou o atleta negro como o esperado, mas não mexeu no resultado. Deixar o placar em paz virou, ao que parece, um padrão civilizatório que a Fifa de 2026 não alcança.
O que entristece mesmo é que o único precedente da própria Fifa é… brasileiro. Em 1962, no Chile, Garrincha foi expulso na semifinal e absolvido pelo tribunal da entidade a tempo de jogar a final. Por trás da absolvição, um telegrama do então primeiro-ministro Tancredo Neves cobrando justiça para o craque, e o sumiço providencial do bandeirinha uruguaio que era a única testemunha do lance, embarcado para Montevidéu na véspera do julgamento.
A diferença entre 1962 e 2026 é que a malandragem perdeu a vergonha. Tancredo pressionou por telegrama, no sigilo dos bastidores, e o bandeirinha sumiu de fininho. Trump ligou para o presidente da Fifa, foi atendido em quatro dias e ainda agradeceu publicamente na própria rede social. O que era contrabando de bastidor virou vitrine de poder.
E quando o anfitrião mostra que a regra se dobra por telefone, o prejuízo não é só da Bélgica, que estuda recorrer — e faz bem. Cada vitória dos Estados Unidos nesta Copa entra em campo carregando um asterisco.





