
Tem o microfone que Lula sabe que está ligado e tem o microfone que ele jurava estar desligado. Os dois captaram o presidente na mesma cúpula do G7, em Évian, na França, e gravaram dois homens diferentes dentro do mesmo terno.
No microfone ligado, diante de Donald Trump e das câmeras, Lula subiu no púlpito da desigualdade. Disse, com todas as letras, que o primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres do planeta, fruto de décadas de "políticas pró-bilionários". O trilionário tem nome, ainda que o presidente tenha poupado a plateia de pronunciá-lo: é Elon Musk, que cravou a marca de 13 dígitos na sexta passada, quando a SpaceX abriu o capital na Nasdaq. Era o vilão perfeito para a foto: a fortuna obscena, o bilionário como praga do planeta, a esquerda inteira embrulhada num discurso de exportação.
No microfone que não estava no roteiro, à margem da mesma reunião, um áudio capturado pela Associated Press flagrou o outro Lula. Numa conversa com Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, e com Friedrich Merz, o chanceler alemão, o presidente confidenciou que nunca foi esquerdista. Que o mundo, no fim, não é de esquerda. Que o mundo é do "caminho do meio".
Vale reparar na geografia dessa convicção. Para quem assiste — Trump, a imprensa, o eleitor que paga a conta da indignação —, o megafone contra o bilionário. Para quem assina o talão de cheques do capital — a chefe do Fundo Monetário e o chanceler da maior economia da Europa —, o cochicho de que ele, no fundo, nunca foi bem essas coisas.
A convicção que rende voto, Lula grita. A convicção que acalma banqueiro, Lula sussurra. É a mesma boca, calibrada conforme a acústica da sala.
E é justamente aqui que o discurso encontra o espelho. Enquanto o presidente pregava na França contra a concentração de riqueza, a Polícia Federal deflagrava no Brasil a nona fase da Operação Compliance Zero. São 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, pela caneta do ministro André Mendonça. Entre os alvos, nada menos que Jaques Wagner, senador pela Bahia e líder do governo Lula no Senado. A investigação apura corrupção e lavagem de dinheiro na órbita do Banco Master, o banco de Daniel Vorcaro.
Convém ser preciso, porque presunção de inocência não é luxo que se concede a quem a gente gosta e se nega a quem a gente detesta. Wagner é alvo de busca e apreensão. Não está preso, não foi denunciado, não foi condenado. Ele nega qualquer envolvimento e diz que sua única ligação com o ex-sócio de Vorcaro foi a venda da Cesta do Povo, a antiga rede estatal baiana, nos tempos em que governava o estado.
Acontece que "única ligação" é uma expressão grande para o tamanho da agenda. O próprio Wagner já confirmou ter feito mais do que vender supermercado estatal: foi ele quem indicou Ricardo Lewandowski, recém-saído do Supremo, como consultor do Master.
O escritório da família do ex-ministro faturou cerca de R$ 6,5 milhões do banco, a maior parte já com Lewandowski sentado na cadeira de ministro da Justiça de Lula. E reportagens também atribuem ao senador a articulação que levou Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, à consultoria milionária da instituição, o que Wagner nega.
Indicar gente para um emprego não é, necessariamente, crime. Mas, quando o líder do governo no Senado funciona como uma espécie de caça-talentos de luxo do banqueiro, garimpando para o Master um ex-ministro do Supremo e, segundo a imprensa, um ex-ministro da Fazenda a tal "única ligação", começa a parecer um catálogo inteiro de contatos a serviço do banco.
É esse o fio que costura Évian à Bahia. Daniel Vorcaro não tinha partido. Comprou acesso à direita e à esquerda, ao Centrão e ao Supremo, ao Banco Central e ao Senado, com a desenvoltura de quem trata política como carteira de clientes. O Master é a prova de que, no Brasil, a ideologia troca de camisa na porta giratória do banco. Lá dentro não há esquerda nem direita. Há cliente.
E foi exatamente essa a semana que Lula escolheu para dar lição de moral no planeta sobre a fortuna do primeiro trilionário e sobre as políticas que engordam bilionário. Discursou contra estes em Évian no mesmo intervalo em que a PF abria as gavetas do líder do seu governo num caso de banqueiro bilionário. O megafone moral, percebe-se, é para exportação. O banco é assunto interno.
No G7, Lula provou que guarda uma convicção reservada para cada plateia. No caso Master, o Brasil relembra que mantém um banqueiro à disposição de cada poder. A única coerência que sobrou nessa história é a do dinheiro: o discurso muda conforme quem escuta, mas o cheque sempre acha o caminho de volta para a sala onde o poder se senta.



