
Kassio Nunes Marques toma posse hoje na presidência do Tribunal Superior Eleitoral com a missão ingrata de fingir que isso é apenas uma solenidade. A cerimônia está marcada para esta terça-feira (12), às 19h, e ele terá André Mendonça como vice na gestão que conduzirá as eleições gerais de 2026. O próprio TSE lista entre os desafios do mandato a preparação do pleito, a segurança das urnas e o combate à desinformação. Burocracia, portanto, só no convite.
Nunes Marques chega ao comando do tribunal numa posição quase cômica. Foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, mas não parece satisfazer inteiramente o bolsonarismo. Transita bem em Brasília, conversa com o Centrão, tem pontes com o governo Lula e não cultiva aquele temperamento de quem acorda querendo virar personagem de rede social. Num país em que todo mundo quer saber a cor do juiz antes de ouvir a sentença, ele tenta parecer cinza. O problema é que, em ano eleitoral, cinza é sempre a cor do inimigo.
A direita olha para Nunes Marques e pergunta se o ministro indicado por Bolsonaro será, afinal, um ministro de Bolsonaro. A esquerda olha para Nunes Marques e pergunta se o ministro indicado por Bolsonaro será um problema para Lula. É a sofisticação institucional brasileira reduzida ao nível de enquete de grupo de WhatsApp: esse juiz é nosso ou deles?
A posse ainda oferece uma fotografia cruel do país. Lula deve prestigiar o novo chefe do TSE. Bolsonaro e Collor foram convidados por protocolo, como ex-presidentes, mas ambos cumprem pena imposta pelo Supremo e dependeriam de autorização judicial para comparecer. O presidente que tenta a reeleição na plateia, o principal líder da oposição fora da urna e, na prática, fora da festa. O tribunal que deveria apenas organizar a eleição sentado, de novo, no centro do palco político.
O detalhe mais interessante é que Nunes Marques sinaliza uma gestão menos intervencionista. Quer usar menos o poder de polícia, tão adorado pelo controverso Alexandre de Moraes, e apostar mais em direito de resposta, diálogo com partidos, reuniões com tribunais regionais e apoio técnico para identificar conteúdos falsos produzidos por inteligência artificial. Em tese, ótimo. A Justiça Eleitoral não existe para substituir a política, isso acontece em países que não são afeitos à democracia. Eleição não deveria ser decidida por despacho, ofício e plantão de remoção de postagem.
Só que existe a parte chata da realidade, essa inconveniente. A mentira não espera a ata da reunião. Ela circula, viraliza, contamina e só depois alguém descobre que o vídeo era falso, o áudio era montado, a imagem era fabricada e o candidato nunca disse aquilo. O TSE já aprovou regras para a eleição de 2026 sobre inteligência artificial, incluindo identificação de conteúdos criados ou alterados por IA e restrições a materiais manipulados nas 72 horas antes e nas 24 horas depois da votação. A intenção é impedir que uma eleição seja decidida por uma fala que nunca existiu.
Esse é o dilema real. Interferir demais transforma o tribunal em editor-geral do debate público. Interferir de menos pode ser apenas uma forma elegante de chegar atrasado. Moraes foi acusado de excesso. Nunes Marques será testado pelo risco oposto. O país, sempre muito criativo em suas tragédias, conseguiu chegar a um ponto em que até moderação pode parecer suspeita.
Não se trata de saber se Nunes Marques é de Lula ou de Bolsonaro. Essa é a pergunta pobre, a pergunta de torcida, a pergunta de quem acha que instituição é puxadinho de campanha. A questão é saber se o TSE conseguirá ser menos protagonista sem ser omisso, mais discreto sem ser ingênuo, mais aberto ao diálogo sem virar refém da pressão política.
A direita quer menos Moraes. O PT quer menos risco ao seu projeto de poder. O eleitor, esse outro inconveniente no meio da disputa, precisaria de algo mais simples e muito mais difícil: uma eleição em que o resultado não dependa nem da fé cega na urna, nem da fé cega no juiz, mas de um mínimo de confiança nas regras do jogo.
É pedir bastante. No Brasil de 2026, até o juiz do empate entra em campo sob suspeita de estar torcendo.

