
O Tremendão escreveu uma frase que sobreviveu porque diz, em tom de brincadeira, uma verdade incômoda: "tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda". No caso de Flávio Bolsonaro, a piada perdeu a leveza.
A relação com Daniel Vorcaro ainda precisa ser dissecada no terreno jurídico, com provas, rastros financeiros e contraditório. Mas no terreno moral, a lama já subiu até o pescoço. De novo.
Nem tudo o que é imoral é necessariamente ilegal. Esta frase virou no Brasil uma lavanderia de reputações. Como se o que ainda não foi carimbado por um juiz estivesse automaticamente limpo. Como se a vida pública fosse apenas um teste de Código Penal. Como se o eleitor tivesse obrigação de esperar a sentença para perceber o cheiro.
Flávio não aparece nessa história como um desconhecido fotografado por acaso ao lado de um banqueiro problemático. Ele negociou diretamente com Vorcaro recursos milionários para bancar um filme sobre Jair Bolsonaro. O valor citado chega a R$ 134 milhões, sendo que R$ 60 milhões foram efetivamente pagos, segundo o próprio senador. Deve se tratar de uma produção com efeitos especiais dignos da Disney, pelos valores.
Isso tudo sem falar nas mensagens íntimas, no tratamento de "irmão". O que vimos foi a naturalidade de quem estava entrando em casa.
O dinheiro, apesar de absurdo, é quase secundário. O absurdo mesmo é a intimidade. A pergunta não é se Flávio cometeu crime. É por que alguém que quer governar o Brasil se sente tão à vontade nesses lamaçais — no plural, porque este não é o primeiro.
Antes de Vorcaro, havia Fabrício Queiroz e o esquema de rachadinhas na Alerj. Antes de Queiroz, havia Adriano Nóbrega, chefe do Escritório do Crime – milícia – cuja mãe e ex-mulher trabalhavam no gabinete de Flávio, e a quem ele concedeu a Medalha Tiradentes. A vizinhança moral de Flávio não é acidente, é padrão.
O bolsonarismo vendeu-se por anos como faxineiro moral do país. Agora, tenta se esconder atrás da palavra "privado". Filme privado, relação privada, tudo privado, menos a ambição presidencial.
Flávio, então, não perdeu agora as condições de ser presidente. Ele nunca as teve. Carregava o sobrenome como patrimônio eleitoral, não como prova de grandeza, e herdou a máquina afetiva do bolsonarismo mas nunca demonstrou estatura própria.
Num país menos adoecido, isso bastaria. Não para condenar por manchete, mas para separar o joio do trigo. Alguém que chama Vorcaro de irmão, que homenageou chefe de milícia, que tinha Queiroz como operador, que tornou conhecida nacionalmente a prática da “rachadinha”, não pode pedir ao país que o trate como estadista.
Há vidas públicas que morrem antes da denúncia. Morrem quando revelam sua vizinhança moral ou quando mostram que, diante do lamaçal, não sentem nojo – farejam oportunidade.


