
Não havia uma única pessoa em Brasília, em setembro de 2025, que não soubesse quem era Daniel Vorcaro, nem como operava, nem o que significava andar perto demais daquele tipo de personagem. É bom começar por aí, porque o Brasil adora fingir surpresa quando a fotografia fica constrangedora demais para caber na moldura.
Agora, diante das revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e o Banco Master, já começou a velha lavanderia moral. Como se estivéssemos falando de um encontro casual, de uma selfie em evento, de um aperto de mão distraído no corredor do Congresso. Não estamos. Segundo as informações reveladas, Flávio teria pedido R$ 134 milhões a Vorcaro. Está demonstrado que R$ 61 milhões foram pagos. O Master declarou ter repassado R$ 2,3 milhões a uma empresa ligada a Vorcaro, que depois pagou a produtora do filme. Este é o fato. E o fato, pobrezinho, não tem a menor obrigação de se adaptar à torcida de ninguém.
Há ainda a delicadeza espiritual do caso. No dia 16 de novembro, Flávio chamou Vorcaro de “irmão” em mensagem ao banqueiro. Disse que estava e estaria com ele sempre. No dia seguinte, Vorcaro foi preso no Aeroporto de Guarulhos. Não é detalhe. Mostra proximidade, intimidade, conforto, uma espécie de ternura financeira difícil de explicar numa campanha moralista.
Ontem, quando um repórter perguntou se ele havia recebido dinheiro do Master, Flávio reagiu como um Bolsonaro em estado puro: atacou o jornalista. A pergunta era óbvia. A grosseria também. Quando a realidade aperta, a família tenta transformar a imprensa em inimiga. Não explica o fato, só agride quem pergunta. É método e não temperamento.
Para completar o espetáculo, Valdemar Costa Neto ainda reafirmou interesse em Ciro Nogueira como vice de Flávio. Mesmo depois de tudo o que aconteceu nesta semana envolvendo o senador do Piauí. Certos setores da direita brasileira não apenas enxergam o abismo, eles chegam perto, olham para baixo e perguntam se tem camarote.
E aqui vale lembrar a frase que Eduardo Bolsonaro, com a sofisticação habitual do clã, lançou ao mundo nas suas redes sociais em 2022, ao falar do presidente Lula: “anda com bandido, é amigo de bandido”. Pois é. A internet tem dessas crueldades. Às vezes, a frase volta para casa com uma pontualidade quase literária.
Dizem que Flávio é o candidato da moral, da família, dos bons costumes, da ordem, do Brasil limpo contra o Brasil sujo. Ora, chamar um banqueiro notoriamente corrupto de irmão não é exatamente uma aula de moral. Dizer que sente muito pelo momento difícil vivido por um personagem desse tamanho também não me parece um manifesto de bons costumes. Pode até não ser crime, mas é uma vizinhança moral bastante eloquente.
A desculpa de que era dinheiro privado é uma piada que só funciona como abrigo para os covardes. Ao que tudo indica, Vorcaro não tem um único real verdadeiramente privado. O dinheiro orbitava entre estruturas públicas, operações investigadas e um sistema que deixou rastro de prejuízo. Privado mesmo foi o benefício do banqueiro. O prejuízo, como quase sempre, sobrou para o país.
Quem quer falar em decência não pode tratar Vorcaro como irmão num dia e como desconhecido no outro. Quem quer disputar o poder em nome da limpeza pública não pode ficar explicando por que estava tão à vontade perto de um dos personagens mais tóxicos do mercado financeiro brasileiro.
Flávio Bolsonaro não perdeu condição de ser candidato a presidente por causa disso. Ele nunca teve essa condição. Diante de tudo, o digno seria abandonar a fantasia presidencial e abrir espaço para alguém menos próximo desse pântano todo. Mas, como diria o Barão de Itararé, de onde nada se espera, é de lá que não vem nada mesmo.
No caso de Flávio, o problema não é só a companhia. É a naturalidade com que ele parece ter escolhido sentar à mesa. Alguém assim não tem calibre moral para dormir no Palácio da Alvorada.



