
A política brasileira já produziu desculpas melhores. Também já produziu piores, é verdade, mas poucas com tamanha vocação para insultar a inteligência alheia. Esta, aliás, é uma das maiores habilidades do clã Bolsonaro: aviltar a capacidade cognitiva de quem sabe ler.
Flávio Bolsonaro admitiu que foi à casa de Daniel Vorcaro depois da primeira prisão do dono do Banco Master, quando o banqueiro já estava com restrições impostas pela Justiça, incluindo tornozeleira eletrônica. Segundo o senador, a visita serviu para “botar um ponto final nessa história” do filme do pai dele. Bonito. Romântico, quase. Um encerramento presencial, olho no olho, talvez com café, água com gás – quem sabe uma dose de Macallan? – e o constrangimento repousando em cima da mesa de centro.
O detalhe é que ninguém precisa atravessar o país para encerrar uma relação irrelevante. Ninguém vai até a casa de um sujeito recém-saído da prisão para comunicar, solenemente, que não quer mais saber dele. Para isso existe telefone, existe mensagem, existe advogado. Existe silêncio, inclusive, que às vezes é o único instinto de sobrevivência disponível a quem ainda tem algum.
Mas Flávio foi lá. E foi, segundo ele, porque Vorcaro não podia sair de São Paulo. A frase é maravilhosa. O banqueiro estava restrito, então o presidenciável se deslocou até ele. A tornozeleira não impediu o encontro, apenas transferiu a visita para a casa do problema.
O roteiro de defesa é conhecido. Tudo era apenas sobre o filme sobre Jair Bolsonaro. Tudo era privado. Tudo era financiamento cultural, como se estivéssemos falando de uma vaquinha para documentário independente exibido em cineclube de bairro. Só que o projeto envolvia cifras milionárias, áudios, mensagens, cobrança de dinheiro e um banqueiro atolado no maior escândalo financeiro do país.
Pode não ser crime. Essa é sempre a linha de chegada moral do Brasil. Quando a história fica indecente demais, alguém corre para o Código Penal e pergunta se já pode chamar de crime. Talvez não possa. Talvez faltem provas. Talvez sobrem nuances jurídicas. Mas a pergunta eleitoral é outra e já foi feita nesta mesma coluna: um sujeito que pretende presidir o país pode achar normal pedir fortuna a um banqueiro como Vorcaro para bancar um filme sobre o próprio pai? E, pior, pode depois visitar esse banqueiro em casa, após a prisão, para “colocar um ponto final”?
A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra que 51,7% dos entrevistados que ficaram sabendo dos áudios veem evidência de envolvimento de Flávio com o escândalo do Banco Master. A mesma pesquisa indicou que a divulgação das conversas enfraqueceu a candidatura para parte relevante do eleitorado.
Não é difícil entender. O eleitor pode tolerar muita coisa. Tolera grito, bravata, vitimismo, perseguição imaginária, frase pronta sobre comunismo, post indignado, live com fundo escuro, deputado fazendo papel de mártir diante da câmera. Mas há momentos em que a encenação encontra um objeto concreto demais. Neste caso, encontrou um banqueiro preso, uma tornozeleira e uma visita que ninguém conseguiu explicar sem piorar.
A cena de Sergio Moro cabisbaixo enquanto Flávio admitia o encontro viralizou porque parecia uma instalação artística involuntária sobre o Brasil. O ex-juiz da Lava-Jato, hoje aliado do bolsonarismo, assistindo ao presidenciável do partido explicar por que foi ver um banqueiro investigado depois da prisão. Faltou só alguém apagar a luz e chamar de performance.
Flávio insiste que não há nada além do filme. Talvez seja exatamente esse o problema. Porque, se a melhor explicação disponível é essa, a crise já saiu do jurídico e entrou no campo da aptidão política. Quem se enrola desse jeito antes mesmo da largada não está preparado para quase nada, quanto menos disputar o Planalto. Está preparado – e há controvérsias quanto a isso – para disputar versão.
O filme sobre Jair Bolsonaro queria transformar o ex-presidente em épico. Até agora, conseguiu transformar a candidatura do filho em making of de desastre.



