
Lula descobriu, em menos de 24 horas, que a caneta presidencial escreve, mas não hipnotiza.
Na quarta-feira (29), o Senado rejeitou Jorge Messias para o Supremo. Na quinta (30), o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto da dosimetria, que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de Janeiro e beneficia Jair Bolsonaro. Uma derrota histórica como a de ontem já seria muito grave. Duas em sequência viram diagnóstico.
O mais quente, agora, não é Messias. Messias foi o tombo histórico, a humilhação inédita, o Senado dizendo não a uma indicação presidencial ao STF pela primeira vez em 132 anos. Mas a derrubada do veto revela algo mais profundo: o governo não controla nem a própria base quando o assunto realmente importa.
Na Câmara, foram 318 votos pela derrubada. No Senado, 49. Não foi uma derrota apertada, foi pancada com placar aberto. Partidos com ministérios no governo ajudaram a derrotar o governo.
O veto tinha peso simbólico. Lula o assinou em 8 de janeiro, numa cerimônia no Planalto, tentando reafirmar a memória institucional dos ataques aos Três Poderes. O Congresso respondeu com outra mensagem menos solene, mais brutal e muito mais eficiente, derrubando agora o veto.
O projeto da dosimetria é a alternativa brasiliense à anistia ampla. Não chama de perdão, não tem cheiro de perdão, não usa roupa de perdão, mas produz parte dos efeitos que interessam ao bolsonarismo. Sai a anistia escancarada, entra a calculadora penal. Bolsonaro agradece.
O governo tentou dizer que a derrubada do veto poderia criar efeitos colaterais graves, inclusive sobre regras de progressão de regime para crimes hediondos e facções criminosas. Davi Alcolumbre então entrou em cena mais uma vez – do outro lado do ringue, claro – e declarou trechos prejudicados para evitar conflito com a Lei Antifacção, esvaziando o argumento do Planalto. Pode-se discutir a manobra, mas o resultado político é cristalino: Alcolumbre novamente operou, o governo novamente reclamou e o Congresso novamente votou.
A rejeição do advogado-geral da União ao STF, por 42 votos a 34, foi o aviso prévio. Depois de meses de articulação, telefonemas, jantares, promessas, cargos, emendas e cálculo, Lula descobriu que muito senador que sorri no gabinete vota com a faca no escuro. No dia seguinte, o Congresso apenas completou o serviço.
As duas derrotas contam a mesma história. Lula tem caneta, orçamento, ministérios e cerimônia. Mas perdeu comando. A base virou uma ficção mantida por release. O Centrão percebeu que pode cobrar mais caro. A oposição percebeu que o governo sangra. O Supremo percebeu que o pós-jogo de suas decisões também será disputado no Congresso.
Não há inocentes nessa cena. O bolsonarismo comemora a dosimetria como vitória da liberdade, mas sabe perfeitamente quem será beneficiado. O governo fala em defesa da democracia, mas não consegue organizar os próprios aliados. O Senado diz que exerceu sua prerrogativa contra Messias, o que é verdade, embora muita gente tenha descoberto a nobreza institucional exatamente quando ela servia aos seus interesses mais terrenos.
O fato é que Lula saiu menor. Tentou barrar a dosimetria e perdeu. Tentou emplacar Messias e perdeu. Em dois dias, viu o Congresso reduzir o custo político do 8 de Janeiro para Bolsonaro e barrar seu nome para o Supremo.
Na quarta, faltaram votos para Messias. Na quinta, sobraram votos contra Lula.
É muita derrota para pouco intervalo.




