
A foto é asquerosa porque não deixa margem para a boa-fé. Não há contexto tático, não há névoa de guerra, não há ambiguidade moral. Há um soldado israelense com uma marreta golpeando uma imagem de Jesus Cristo no sul do Líbano. E há, nesse gesto, tudo o que uma guerra produz de mais degradante quando ela também corrói o caráter: a transformação da força em humilhação, da farda em licença para o aviltamento, da superioridade militar em grosseria sacrílega. As próprias autoridades israelenses reconheceram a autenticidade da imagem, classificaram o episódio como grave e prometeram punição ao responsável. Benjamin Netanyahu e as Forças de Defesa de Israel condenaram publicamente o ato, enquanto líderes católicos da Terra Santa o trataram como uma afronta séria à fé cristã. E é, mesmo.
É preciso dizer isso com todas as letras, sem medo de ser claro num tempo que vive de confusão moral: esse soldado merece ser punido severamente. Não com uma notinha burocrática, não com uma sindicância ornamental, não com aquela liturgia cínica das instituições que fingem indignação para proteger a própria imagem. Merece punição exemplar, porque profanar um símbolo religioso não é só vandalismo, é estupidez moral. É desonra. É a celebração de uma brutalidade que nenhuma causa séria deveria tolerar.
E justamente por isso o caso exige uma segunda clareza, tão importante quanto a primeira. A culpa é do soldado. Eventualmente, de quem o acobertar. Talvez de uma cultura militar que não tenha sabido formar limites elementares. Mas não dos judeus. Não “dos israelenses” como categoria metafísica. Não de um povo inteiro transformado em caricatura por causa da ação de um canalha fardado.
Essa distinção deveria ser banal. Mas estamos vivendo numa era em que o cérebro humano resolveu pedir demissão em massa. Então convém repetir o óbvio, ainda que o óbvio humilhe. Existem israelenses bons e israelenses maus. Palestinos bons e palestinos maus. Russos bons e russos maus. Americanos bons e americanos maus. Brasileiros bons e brasileiros maus. O que há de mais primitivo no mundo é justamente essa tentação bovina de pegar o pecado de um indivíduo, ou mesmo de um grupo, e transformá-lo em sentença étnica, religiosa ou nacional.
Foi assim ao longo da história com os judeus, aliás, vezes demais. Um crime, um boato, uma profanação, uma crise qualquer, e logo aparecia a patrulha ancestral da generalização, esse esporte de covardes em que o culpado concreto some e entra em cena um povo inteiro como réu metafísico. O antissemitismo sempre adorou um atalho moral. Ele dispensa prova, nuance, proporção e inteligência. Basta uma imagem forte e pronto: a canalhice individual vira combustível para o preconceito coletivo.
É por isso que esse episódio é duplamente repugnante. Primeiro, pelo ato em si, grotesco, ofensivo, indigno. Segundo, porque oferece munição perfeita para todo tipo de ódio antigo travestido de indignação contemporânea. Um imbecil com marreta não destrói só uma estátua, ele ajuda a erguer, tijolo por tijolo, o cenário ideal para que fanáticos do outro lado ressuscitem fantasmas milenares.
Nada disso diminui a gravidade do que ocorreu. Ao contrário. Porque um Estado que se pretende democrático e civilizado precisa ser capaz de punir com rigor quem profana símbolos sagrados, sobretudo quando veste sua farda. E precisa fazê-lo não apenas para preservar relações diplomáticas ou evitar desgaste de imagem, mas porque há atos que maculam a própria ideia de civilização. A IDF afirmou que o comportamento do soldado contraria seus valores e disse estar trabalhando para restaurar a estátua. O soldado já foi identificado, segundo a imprensa israelense, e a investigação segue pela cadeia de comando.
Mas a obrigação dos civilizados não termina na punição. Termina também na recusa do raciocínio por atacado. Condenar o soldado, sim. Com nojo. Com firmeza. Com todas as palavras. Transformar isso em senha para demonizar judeus, alimentar antissemitismo ou tratar cada israelense como cúmplice hereditário, não. Isso não é justiça moral. Isso é apenas outra forma de barbárie, agora fantasiada de consciência.
No fim, o que a foto mostra não é Israel inteiro, nem o judaísmo, nem um povo, nem uma fé. Mostra um homem pequeno fazendo uma coisa vil. E já seria bastante. O mundo piora muito quando um idiota com martelo se sente autorizado a agredir o sagrado. Piora ainda mais quando milhões de outros idiotas usam a cena para justificar o ódio que já queriam sentir mesmo antes da foto existir.



