
A velocidade da blindagem costuma ser o melhor termômetro da gravidade do que está sendo blindado.
O relatório da CPI do Crime Organizado, rejeitado por 6 votos a 4 após articulação para trocar integrantes da comissão, pode até não produzir efeito prático imediato, mas produziu uma revelação preciosa: quando a investigação encosta em figuras realmente imponentes da República, o sistema deixa de fingir lentidão, ritualismo ou prudência. Ele age e age rápido.
Foi assim que a CPI terminou. Com uma manobra política para enterrar o texto de Alessandro Vieira e com uma reação quase caricatural de ministros do Supremo. Sem ruborizar, Dias Toffoli falou em cassação e inelegibilidade para quem “ataca instituições”. Gilmar Mendes acusou o relator de ter “esquecido dos seus colegas milicianos” e sugeriu abuso de autoridade. A cena toda foi de uma indigência institucional constrangedora não pela discordância, mas pela confusão deliberada entre a pessoa do ministro e a instituição que ele ocupa temporariamente – com a graça de Deus.
Esse é um dos pontos mais degradantes de todos. Criticar ministro não é atacar o Supremo. Apontar conflito de interesses não é ofender a democracia. Questionar condutas impróprias não é conspirar contra o Estado de Direito. Ministro não é instituição, é agente público e, por isso mesmo, submetido a um padrão ainda mais rigoroso de decoro, distanciamento e explicação.
Na entrevista ao Timeline da Rádio Gaúcha nesta manhã, Alessandro Vieira foi didático sobre um tema que parte da reação corporativa tenta embaralhar. Ele não está falando, ao menos nesse relatório, de crime comum com condenação penal batendo à porta. Ele está falando de crime de responsabilidade, que é outra categoria, de natureza político-administrativa, fundada em fatos que estão documentados e, mais do que isso, não são negados pelos ministros. Até agora, ninguém negou nada. Moraes não negou o contrato milionário da esposa com o Master, Toffoli não negou que vendeu seu resort para o cunhado de Daniel Vorcaro, Gilmar tomou decisões amparadas na sua opinião, e não na lei.
Contratos milionários, relações financeiras, viagens, contatos impróprios por telefone, decisões processuais altamente convenientes, atuação de ministros que deveriam ter se dado por suspeitos. Pode-se discordar da conclusão, é claro. O que não se pode fazer é fingir que os fatos desapareceram porque um ministro subiu à tribuna e engrossou a voz.
Outro ponto importante da entrevista ajuda a ampliar a moldura. Vieira insistiu que crime organizado não é apenas o bandido pobre armado na periferia. Isso é a face visível, o sintoma mais brutal. O problema maior está na engrenagem, no dinheiro lavado, na proteção institucional, na circulação elegante de interesses entre mercado, política, advocacia, tribunais e Estado. Talvez seja justamente por isso que o caso Master tenha provocado tanto nervosismo. Ele desloca o debate do beco para o gabinete.
Também chama atenção a assimetria da valentia institucional. Para investigar a ponta armada do crime, o Estado brasileiro hesita, tropeça e tarda. Para conter uma investigação que se aproxima de autoridades togadas, a resposta vem em bloco, com recados, decisões, ameaças veladas e discursos de superioridade moral. A CPI do Crime Organizado acabou oferecendo um retrato involuntário do país. O crime se sofisticou e a blindagem também.
A fala de Toffoli talvez tenha sido a mais reveladora. Não pelo que disse sobre o relatório, mas pelo impulso que ela escancarou. O impulso de vestir a toga como escudo pessoal. O de apresentar questionamento como ataque institucional. O de sugerir sanção política contra quem ousa investigar. Esse é o tipo de reflexo que rebaixa o Supremo, não o protege.
A instituição sobrevive aos seus membros, graças a Deus. O problema começa quando alguns membros passam a se comportar como se a instituição devesse sobreviver só para protegê-los.



