
Tem país que perde o rumo. O Peru resolveu perder até o filtro.
A eleição deste fim de semana por lá teve 35 candidatos. Trinta e cinco. Não é pluralismo, não é vitalidade democrática, não é uma festa da representação. É um colapso com urna eletrônica. Quando um sistema partidário se esfarela a esse ponto, a política deixa de organizar a sociedade e passa a parecer uma rinha de siglas, egos e ressentimentos. Vira uma espécie de sorteio cívico entre sobrenomes conhecidos, caricaturas ideológicas e oportunistas profissionais.
E, nesse cenário de desmoralização tão avançada, reaparece com força Keiko Fujimori. Não como novidade, claro, mas como sintoma. Filha política de um legado autoritário, herdeira de um imaginário de ordem pelo porrete, ela volta a ocupar o centro do palco num país exausto de crise, escândalo, improviso e degradação institucional. A desordem foi tanta, a desmoralização foi tão profunda, que a democracia peruana começa a produzir uma nostalgia do cacete. O eleitor já não procura um projeto, procura alguém que pareça capaz de bater na mesa, ou na cara.
Há ainda um detalhe quase cômico, não fosse trágico. Keiko endurece o discurso contra imigrantes e acena a um tipo de retórica trumpista importada sem nem passar pela alfândega. E isso vindo de alguém cujo sobrenome denuncia, digamos, uma origem que também não brotou exatamente da Cordilheira dos Andes. O populismo tem dessas ironias. Ele adora pureza identitária até encontrar um espelho.
Na Hungria, o enredo foi outro. Viktor Orbán, depois de 16 anos no poder, caiu. E caiu depois de fazer o que tantos aspirantes a autocrata fazem quando aprendem a linguagem da democracia apenas para desmontá-la por dentro. Capturou instituições, pressionou a imprensa, cultivou o culto da força, vendeu a imagem do líder viril que salva a pátria enquanto apodrece os freios do regime por dentro. O pacote completo do autoritarismo com marketing de patriota.
Mas o mais interessante na derrota de Orbán não foi apenas a queda, foi a natureza de quem venceu. Não foi a esquerda progressista, nem uma guinada cultural exuberante, nem um levante iluminado das almas sensíveis da Europa Central. Quem derrotou Orbán foi Péter Magyar, um nome de centro-direita. Em outras palavras, o eleitor húngaro não virou necessariamente para o outro lado, apenas cansou do delírio. Quis permanecer no mesmo campo ideológico amplo, mas sem seita, sem surto, sem esse tipo de governante que confunde mandato popular com procuração divina.
É aí que Peru e Hungria, por caminhos opostos, acabam servindo como espelho para o Brasil.
O Peru mostra o que acontece quando o sistema partidário apodrece a tal ponto que o centro desaparece, a política vira feira e o eleitor fica entregue ao mais barulhento, ao mais conhecido ou ao mais raivoso. A Hungria mostra outra possibilidade. Mostra que o esgotamento dos extremos pode produzir uma saída mais sóbria sem que a sociedade precise atravessar o espectro inteiro para isso. Às vezes, o eleitor não quer um herói, um profeta ou um justiceiro. Às vezes, ele só quer um adulto funcional. Um sujeito que fale baixo, respeite limites, pare de guerrear com a realidade e simplesmente governe.
Parece pouco mas, no Brasil de hoje, só isso já seria revolucionário.
Porque também aqui a política anda entre a feira peruana e o transe húngaro. De um lado, a fragmentação oportunista, o varejo partidário, a geleia de siglas sem identidade. De outro, a tentação permanente do líder que vive do conflito, da histeria e da degradação institucional convertida em estilo. O problema é que o país parece ainda dividido entre o pânico da bagunça e o fetiche pelo incendiário.
E há momentos em que uma sociedade não precisa de salvação, precisa de normalidade. O drama brasileiro é que seguimos sem saber se queremos escolher um presidente ou contratar um imperador de hospício. Seguimos fascinados por quem acende o fósforo e depois posa de única saída para o incêndio.
No fim das contas, talvez a pergunta de 2026 seja menos ideológica do que psicológica: O Brasil quer ser governado ou quer continuar sendo entretido pelo caos?





