
Tem gente que ainda chama isso de diplomacia porque se acostumou a chamar qualquer brutalidade americana de realismo. Mas o nome do que Donald Trump prometeu nesta terça-feira (7) é outro. O presidente dos Estados Unidos ameaçou destruir pontes, usinas e, nas palavras dele, fazer uma “civilização inteira” morrer numa noite caso o Irã não reabra o Estreito de Ormuz e não aceite um acordo nos termos de Washington.
Não é retórica dura nem bravata normal de campanha, mas sim a linguagem de um homem que passou a tratar a devastação de infraestrutura civil como instrumento legítimo de pressão geopolítica.
Em tempos em que o óbvio não é mais óbvio, é preciso dizer com todas as letras que isso não absolve em um único milímetro o outro lado. O regime dos aiatolás é uma praga histórica, uma ditadura teocrática, misógina, brutal, financiadora de milícias e terrorismo mundo afora e que transformou o próprio povo em refém de delírios religiosos de uma máquina de repressão. O mundo seria muito melhor sem esse regime.
Mas reconhecer a natureza abjeta do regime iraniano não obriga ninguém a aplaudir um presidente americano falando como se fosse normal anunciar, com hora marcada, o colapso humanitário de um país inteiro. O sujeito certo contra o inimigo errado continua podendo fazer a coisa errada. Ou vice-versa.
O que Trump oferece ao planeta é temperamento. Ele transforma imprevisibilidade em método, blefe em doutrina e intimidação em idioma oficial. Já esticou ultimato, já mudou prazo, já insinuou negociação, já prometeu devastação. E agora se enfia na armadilha clássica do macho que grita demais: se recuar, parece fraco; se avançar, pode incendiar de vez a região e espalhar a conta pelo mundo inteiro. A diplomacia internacional, sob Trump, vira refém do humor de um homem que parece governar com a mesma lógica de quem publica ameaça em rede social esperando aplauso da própria torcida.
Há ainda uma humilhação estratégica escondida no berro americano. Os Estados Unidos e Israel enfraqueceram militarmente o Irã, isso é fato. Mas não o bastante para impedir que o regime continue com capacidade de perturbar o planeta pelo bolso. Ormuz não é nota de rodapé, é uma das artérias centrais da energia mundial. E bastou o fechamento efetivo da rota e a escalada da crise para o petróleo físico disparar para patamares próximos de US$ 150 em alguns carregamentos, com cerca de 12% da oferta global afetada. Não existe vitória limpa quando o adversário, mesmo acuado, ainda consegue colocar o mercado global em posição fetal.
No fundo, o que assusta não é apenas o fanatismo iraniano, velho conhecido da humanidade. É a deterioração moral da resposta ocidental. Porque quando a maior potência do mundo passa a falar em assassinar uma civilização inteira como quem anuncia promoção de liquidação, alguma coisa muito séria já apodreceu no vocabulário do poder.
Todo mundo diz defender a civilização, enquanto cada vez mais gente parece disposta a sepultar milhões – de pessoas e de dólares – para provar que manda.
Esse, talvez, seja o traço mais sombrio dessa história toda: a barbárie já não vem só fantasiada de revolução religiosa. Às vezes ela veste terno, entra pela Casa Branca e posta ultimato em caixa alta.


