
A prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, na nova fase da Operação Compliance Zero, empurra o caso para um estágio ainda mais obsceno. Segundo a Polícia Federal, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teria acertado o pagamento de cerca de R$ 146 milhões em seis imóveis de luxo, quatro em São Paulo e dois em Brasília, como vantagem indevida. Mais de R$ 74 milhões já teriam sido rastreados. É uma arquitetura inteira de promiscuidade entre poder público, interesse privado e sofisticação patrimonial.
A conta, quando colocada em português do Brasil, fica ainda mais indecente. Num país em que a renda média do trabalhador gira em torno de R$ 3,5 mil, cada imóvel envolvido no suposto esquema custaria, em média, algo perto de R$ 24 milhões. Vinte e quatro milhões por unidade. O brasileiro médio leva susto com prestação de geladeira enquanto essa gente negocia cobertura como quem escolhe sobremesa.
E há algo de particularmente revelador no modo como tudo aparece. Não é apenas o tamanho do valor. É a naturalidade. Em mensagens reveladas pela investigação, fala-se em visita a apartamento, em levar a esposa para conhecer o imóvel, em cobrar o andamento do acerto. Em certo momento, Vorcaro solta uma frase tão perfeita para resumir o espírito da coisa que parece escrita por um roteirista cínico demais para ser crível: “Eu sou resolvedor de problemas”. É isso mesmo. O Brasil produziu uma elite que chama de solução aquilo que, para o resto do país, é devastação.
Porque o escândalo não está no acabamento de luxo. Está no subterrâneo que sustenta esse luxo. A investigação aponta que a relação entre BRB e Master envolveu a injeção de R$ 12 bilhões do banco público do Distrito Federal em carteiras de crédito consignado descritas como fraudulentas ou fictícias, com prejuízo bilionário potencial para o governo local. Traduzindo: por baixo da varanda gourmet, pode haver dinheiro público apodrecendo.
Para o cidadão comum, o sistema financeiro é juros pornográficos, tarifa bancária, cheque especial, humilhação parcelada. Para certa casta, sistema financeiro é salão privativo. É a zona onde o público e o privado deixam de se distinguir. É onde um banco estatal pode, segundo o ministro André Mendonça, passar a operar quase como extensão da vontade de um banqueiro particular. Não há nem mais esforço para esconder o abuso. O abuso agora tem escritura, fachada elegante e vista panorâmica.
Sai de cena a velha mala de dinheiro, o envelope pardo, o operador suando num estacionamento qualquer e entra em campo a versão gourmet do delito nacional: apartamento de altíssimo padrão, estrutura societária, posse oculta, visita com a esposa, conversa sobre metragem, localização e andamento do “de acordo”. Por aqui, agora até o crime de colarinho branco quer consultoria imobiliária.
A fase anterior da Compliance Zero já havia mostrado um ambiente de intimidação, violência e métodos de submundo. Agora, com Paulo Henrique preso e Vorcaro negociando colaboração, o caso muda de temperatura. Já não se trata apenas da eventual culpa de um ou de outro. O que aparece com clareza é uma cultura em que o poder não se contenta em capturar o Estado, ele quer morar nele. Quer decorá-lo. Quer circular pelos seus cômodos de chinelo, como se tudo fosse uma extensão natural da sua sala de estar – ou da sua “suíte dos macacos”.
O retrato do país está aí: o contribuinte aperta o cinto, enquanto o poder escolhe cobertura.





