
A reação de ministros do Supremo ao relatório da CPI do Crime Organizado foi uma dessas cenas em que o poder, acuado, perde a compostura e revela aquilo que tenta esconder sob o latim, a liturgia e a pose grave de guardião da democracia. O texto de Alessandro Vieira (MDB-SE) foi derrotado. O sistema venceu no placar e na articulação política. Mas não bastou vencer, foi preciso ameaçar.
A questão já não era o mérito do documento. Era o fato de ele ter existido. Um senador da República, no exercício do mandato, pediu a investigação de autoridades por crime de responsabilidade, submeteu o texto a voto, perdeu e aceitou a derrota. Mesmo assim, ouviu de ministros do STF recados públicos sobre cassação, abuso de autoridade, inelegibilidade e investigação criminal.
Torquemada talvez achasse o método burocrático demais, mas reconheceria o espírito. Não basta derrotar a heresia, é preciso ensinar aos demais que a simples suspeita pode custar caro. A fogueira foi substituída pelo ofício e pela ameaça jurídica em tom de sermão institucional. A lógica, nem tanto.
O mais obsceno é a confusão deliberada entre ministro e instituição. Criticar Gilmar Mendes não é atacar o Supremo. Questionar Dias Toffoli não é dinamitar o Estado de Direito. Apontar conflito evidente envolvendo Alexandre de Moraes não é conspirar contra a democracia. Ministro não é altar, é agente público. E a autoridade do cargo não serve para blindar suscetibilidade pessoal.
A mesma Corte que já conheceu, por dentro, diagnósticos duríssimos sobre atraso moral, sombra institucional e interesses pouco republicanos – como esquecer Luís Roberto Barroso em 2018 falando em “bílis” e “mal secreto”? – agora descobre, com espanto seletivo, que palavras duras podem ferir a democracia. Entre togados, o duelo verbal vira temperamento. Vindo de fora, vira crime contra a República.
O relatório podia ser discutível, excessivo ou imperfeito. Nada disso muda o essencial. Um Parlamento que não pode investigar ministros não é Parlamento. Um ministro que trata fiscalização como insulto não é guardião da Constituição, é proprietário emocional do cargo.
O caso é mais grave porque envolve a fronteira onde o Brasil costuma perder a vergonha: dinheiro, influência, advocacia, decisões judiciais, relações familiares, bancos, favores e silêncio. Não há abstração constitucional. Há suspeitas que exigem explicação pública, não chilique institucional.
O Supremo poderia ter saído maior, com sobriedade, documentos, impedimentos quando necessários e silêncio quando o silêncio fosse mais elegante. Saiu menor porque alguns ministros pareceram acreditar que a toga ainda lhes dá o privilégio medieval de escolher quem pode falar diante do trono.
Torquemada, ao menos, chamava heresia de heresia. Brasília prefere chamar melindre de defesa da democracia.



