
A janela partidária acabou e deixou um retrato quase pornográfico da política brasileira. Em trinta dias, deputados puderam trocar de legenda sem perder o mandato, e o país assistiu de novo à mesma romaria de sempre, só que agora ainda mais escancarada. Ronaldo Caiado saiu do União Brasil e foi para o PSD para viabilizar a candidatura presidencial. Sergio Moro trocou o União pelo PL para viabilizar a candidatura ao governo do Paraná. Simone Tebet deixou o MDB e se filiou ao PSB para disputar o Senado por São Paulo. Rodrigo Pacheco também foi do PSD para o PSB. No varejo da Câmara, ao menos 128 deputados titulares mudaram de partido não por divergência conceitual, é claro.
O nome oficial disso é reorganização partidária, embora o nome honesto seja outro. Porque quase nunca se trata de uma travessia ideológica séria, de um rompimento doutrinário, de uma crise de consciência. Ninguém acordou tomado por uma epifania programática. Ninguém passou a madrugada lendo teoria política e descobriu, de repente, que estava filiado no lugar errado havia vinte anos. O que há é cálculo eleitoral em estado bruto. Sigla, no Brasil, virou infraestrutura. Serve para oferecer palanque, tempo de TV, acesso ao fundo, musculatura regional, blindagem interna e melhores condições de barganha. O partido deixou de ser uma casa de ideias para virar um coworking de ambições.
A própria fotografia final da Câmara ajuda a contar essa história. O PL saiu fortalecido em número de filiações. O União Brasil foi a legenda que mais perdeu nomes. O Podemos cresceu no saldo. O PT praticamente preservou sua bancada. E o PSD, cujo pré-candidato é linha auxiliar do bolsonarismo, saiu da janela mais nordestino e mais lulista, com uma configuração mais adaptada ao governismo possível em cada praça. Ou seja, os partidos se mexem menos para dizer quem são do que para descobrir onde rende mais. Não tem nada a ver com identidade, e sim com logística.
O fundo eleitoral, que neste ano soma cerca de R$ 5 bilhões, continua sendo distribuído com base em critérios ligados ao desempenho e à representação do pleito anterior, no caso de 2026, as eleições de 2022. O que significa que mesmo quando a coreografia muda, o dinheiro público continua sendo uma das grandes engrenagens do jogo. A legenda funciona como marca, balcão e cofre. Muda-se de partido para melhorar lugar na fila de um sistema que financia campanha, estrutura projeto pessoal e depois chama tudo isso de rearranjo democrático.
É por isso que tanta troca parece, ao mesmo tempo, escandalosa e banal. Escandalosa porque desmonta em praça pública a ficção de que nossos partidos são comunidades reconhecíveis de pensamento. E banal porque o eleitor brasileiro já foi treinado a tratar isso como paisagem. Um sujeito passa trinta anos numa legenda e sai dela com a naturalidade de quem troca de operadora telefônica. Outro rompe com um campo político, demoniza seus antigos aliados, reconcilia-se meses depois e reaparece sorrindo na foto de filiação. Uma liderança conservadora desembarca na esquerda em nome da democracia. Um ex-juiz símbolo de um ciclo político volta para o colo do grupo que um dia tentou administrar com distância prudencial. E quase ninguém enrubesce.
O problema não é a política mudar. As circunstâncias mudam toda hora, isso é do jogo. O problema é quando tudo muda o tempo inteiro, mas quase nunca por uma razão que o eleitor consiga respeitar. Aí o partido deixa de ser mediação entre sociedade e poder e vira apenas um veículo de ocasião, um CNPJ com número na urna, verba pública no caixa e uma prateleira de candidaturas esperando o melhor encaixe.
A janela partidária não serve apenas para mostrar quem está com quem. Serve para lembrar que, no Brasil, com raras e honrosas exceções, a ideologia costuma ser exigência para o eleitor e luxo dispensável para o político. A sigla entra na propaganda como se fosse convicção enquanto na prática, muitas vezes, funciona como imóvel para locação. Quem paga o aluguel, como sempre, é o público.


