
Não foi de uma vez. Essas humilhações nunca chegam de uma vez. Elas entram pelos cantos e quando a gente percebe, já está emocionalmente comprometido. Foi assim que me peguei acompanhando, com interesse real e um certo nojo de mim mesmo, o destino amoroso de personagens como Moranguete e Abacatudo em vídeos curtos, verticais e grotescamente eficazes. Tenho vergonha de escrever isso, mas a única maneira honesta de tratar essa febre nacional é começar pela minha própria derrota.
Porque o mais espantoso nas novelas de fruta criadas por inteligência artificial não é que elas existam, mas que elas funcionem. Funcionam comigo, inclusive, o que só piora meu argumento. A pessoa vê um vídeo por ironia, outro por curiosidade sociológica, um terceiro já com aquele ar afetado de quem está apenas observando o colapso cultural do seu tempo e, no quarto, pronto: já quer saber se houve traição, se a Moranguete vai perdoar, se o Abacatudo é canalha mesmo ou apenas imaturo, se surgiu alguma kiwi sonsa ou uma banana safada para implodir o casal. Nessa altura, a dignidade já pediu exoneração e o algoritmo assumiu o ministério.
Há algo de particularmente revelador nisso. Depois de dissolver a fronteira entre informação e entretenimento, entre opinião e performance, entre vida pública e surto privado, a internet chegou a um estágio superior de decadência em que nem seres humanos mais são necessários. O drama humano foi considerado trabalhoso demais, então restou sua caricatura. Machado de Assis gastou talento demais com Capitu, bastava ter inventado uma manga traída.
Esse processo mental provocado pela exposição contínua a estímulos curtos, fáceis e viciantes ganhou, dos psicólogos, o nome de "brain rot", algo como "podridão cerebral" em inglês. Parece um exagero moralista, até que a gente se flagra esperando o próximo capítulo de uma orgia entre frutas e legumes como quem espera resultado de eleição. Este é justamente o ponto mais humilhante da história: nunca houve tanta informação disponível, tanta promessa de inteligência ampliada, tanta ferramenta para refinar pensamento e, ainda assim, basta um abacate em crise conjugal para sequestrar o país.
Não dá para tratar tudo isso apenas como bobagem. É bobagem, sim, mas é também sintoma dessa exaustão coletiva que nos deixa disponíveis para qualquer anestesia ridícula. O Brasil, que já lida mal com o que é humano, agora também acompanha triângulo amoroso entre frutas com mais fidelidade do que muita gente acompanha o noticiário.
A novela das frutas é ridícula, sim, mas o constrangimento maior está em nós. E digo isso sem pose, porque eu também parei para ver no que aquilo ia dar e agora estou aqui, adulto, teoricamente alfabetizado, tentando encerrar uma reflexão sobre decadência nacional sem parecer excessivamente abalado por um abacate vagabundo.






